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COLUNISTA

 

Coluna atualizada 23/11/2011
_________________________________________________________________

50 ANOS DE UM BÁRBARO CRIME EM SANTO AMARO DA IMPERATRIZ
MARIA AMIDA KAMERS – MÁRTIR DA VIRGINDADE?

 

Toni JOCHEM
Historiador

 

          Em 1960, houve uma grande enchente em Santo Amaro. Era o dia 02 de março, terça-feira de carnaval para quarta-feira de cinzas. Segundo o Livro de Crônicas, “o rio encheu de tal forma que arrancou pontes, casas desabaram, gado, suínos e galinhas pereceram. Havia dois metros de água nas lojas e casas à beira da estrada geral”[1].

          Segundo o Livro de Crônicas do Convento Santa Rosa, “no silêncio da noite ouviam-se choros, gemidos, gritos angustiados. Três vezes tocou o sino da Igreja para implorar a misericórdia Divina”[2]. Houve grandes prejuízos, inclusive duas pessoas morreram afogadas: Ivo Broering e Manoel Jacinto Amorim. Após a enchente, o medo de doenças era uma preocupação comum entre os moradores atingidos pelas águas. Por isso, em um dia, foram aplicadas mais de 700 vacinas contra tifo, no pequeno Hospital Santa Teresinha, dirigido pelas Irmãs da Divina Providência[3].

          A população precisava se precaver e recorria à vacinação. No ano seguinte, em 1961, foram internados no pequeno hospital 167 doentes, além dos 23.630 pacientes que foram atendidos na farmácia das Irmãs e dos 513 doentes que receberam atendimento ambulante[4]. Em 1961, ocorreram mais duas enchentes: uma em fins de fevereiro e outra em 31 de outubro. A primeira “atingiu todas as casas da rua principal”[5] e na segunda “a água ficou 60 centímetros abaixo do nível do ano passado (1960). Os prejuízos foram bem mais vultuosos nas plantações, principalmente no Sul do Rio. Não houve vítimas”[6].

          Para ajudar a população no saneamento básico, na desinfecção de poços de água e a se deslocar viabilizando o acesso à vacina contra tifo, uma equipe de saúde pública composta por profissionais da área, entre eles um policial, prestavam seus serviços em Santo Amaro. Enquanto realizava o trabalho, parte da comissão de saúde pública hospedava-se num dormitório existente no centro de Santo Amaro.

          Era novembro de 1961. Dia 25, sexta-feira. Naquela noite, “seis casas foram roubadas”[7] em Santo Amaro, de onde foram levados dinheiro, sapatos e até um machado. Uma das casas roubadas foi o bar de propriedade do casal Elídio Thiesen e Terezinha Matilde Gerent Thiesen, de onde foi subtraído todo o dinheiro que havia no caixa, e assassinada a “golpes de machado”[8] a jovem Maria Amida Kamers que, há uns quatro anos, lá estava empregada. Maria Amida tinha 20 anos e dez meses de idade, era natural do Rio Acima, em Taquaras, localidade hoje pertencente ao município de Rancho Queimado, e havia se mudado para Santo Amaro da Imperatriz para estudar, em função de que em Taquaras não havia disponível o estudo correspondente ao seu grau de escolaridade. Estudava no Colégio Nereu Ramos, morava e trabalhava na residência de Elídio Thiesen.

          Maria Amida era uma jovem bela, cheia de vida e de consistentes princípios religiosos. “Ela era bonita, educada, simpática, conversava bem. Era uma das moças mais bonitas de Santo Amaro e, por isso, muitos desejavam namorá-la”, afirma Teresinha Thiesen[9]. Nasceu em 14 de janeiro de 1941, e era filha de Bruno Kamers e de Maria Rengel Kamers. Tinha, na ocasião de seu nascimento, 13 irmãos[10], um dos quais já falecido. Era membro da Pia União das Filhas de Maria de Santo Amaro[11] e rezava diariamente o terço.

          Naquela noite sombria, por uma das janelas da cozinha que ficava contígua ao bar, os ladrões adentraram a residência e, nela, o quarto onde a jovem dormia e, de posse de um machado roubado de uma das casas assaltadas, atacaram barbaramente Maria Amida, deixando seu “crânio esfacelado”[12]. Foram desferidas “umas cinco machadadas na cabeça”[13]. Com esse ato violento, Maria Amida perdeu muito sangue, não resistiu e faleceu imediatamente, enquanto os ladrões fugiam. Era, aproximadamente, 1h da madrugada. Ninguém escutou nada, ninguém viu nada, ninguém sabia de nada... E o assassinato estava consumado.

          Ao amanhecer, como Maria Amida não havia acordado para preparar o café da manhã para as crianças irem à escola, o filho mais velho dos quatro que o casal Elídio e Teresinha tinham, foi chamá-la. Como não conseguiu acordá-la, dirigiu-se ao quarto de Elídio e Teresinha, dizendo que Maria Amida estava "toda vermelha e não acordava", disse Teresinha Thiesen[14]. Terezinha imediatamente foi até o quarto onde Maria Amida dormia e viu-o ensangüentado, inclusive o teto. Olhando para a cama, deparou-se com o corpo de Maria Amida sem vida. No mesmo instante, chamou seu esposo Elídio Thiesen, que, por sua vez, solicitou que chamassem o Delegado de Polícia e o Pároco Pe. Frei Fidêncio Feldmann. Sem demoras, o quarto onde Maria Amida estava foi lacrado e a residência interditada, para preservar os vestígios do crime e facilitar a identificação dos criminosos.

          A notícia, em poucos minutos, tomou toda a população de Santo Amaro; e muitos vieram pessoalmente inteirar-se do acontecido. A revolta foi geral, e a principal indagação era sobre o motivo do crime e sobre a identidade do criminoso. Quem seria? Por que motivo teria tirado a vida de Maria Amida? Todos estavam perplexos diante do acontecido. Ninguém conseguiu, de imediato, responder a essas indagações. Procurado nas imediações, até a arma do crime, o machado, foi encontrado todo ensangüentado. Havia sido jogado na pastagem que ficava no terreno em frente ao dormitório onde parte da equipe de saúde pública estava hospedada.

          Mas, e a motivação do crime? Há duas principais supostas motivações: a primeira é que Maria Amida tenha resistido diante da tentativa de ser violentada sexualmente, por alguém que por ela se dizia apaixonado e, por isso, foi barbaramente assassinada; ainda foram roubados cigarros e o dinheiro do respectivo bar. A segunda versão aponta que, durante o assalto ao bar, Maria Amida tenha visto e reconhecido os ladrões, os quais, ao perceberem que teriam sua identidade revelada, optaram por matá-la. Há a possibilidade de Maria Amida ter sido morta defendendo sua virgindade. Mas também é plausível que ela tenha acordado e reconhecido os ladrões e, por isso, perdeu a vida.

          O corpo de Maria Amida, pelas 9h, foi levado para Florianópolis, a fim de que passasse pelos devidos exames de autópsia. O atestado de óbito foi firmado pelo Dr. Fernando Wendhausen, que deu como causa da morte “fratura múltipla do osso frontal”[15]. Voltando de Florianópolis, pelas 20h, o corpo foi velado na residência de José Gerent e Leopoldina Lehmkuhl Gerent, pais de Teresinha, por aproximadamente duas horas, com grande afluência da população de Santo Amaro. Aproximadamente às 22h, o corpo foi levado para Rio Acima, em Taquaras, onde os pais da vítima residiam. De volta à casa paterna, o velório continuou por toda a madrugada, comparecendo grande número de familiares, amigos e curiosos. Durante o velório, pouco antes do sepultamento, muitas pessoas afirmaram ter visto que do corpo de Maria Amida jorrou sangue, fato que foi muito comentado.

          O sepultamento foi realizado na manhã do dia seguinte ao crime, no cemitério da Igreja São Bonifácio, em Taquaras, após missa de corpo presente presidida pelo Pe. Frei Anésio München, da Paróquia de Santo Amaro, e assistida por centenas de pessoas. Em Taquaras, foi celebrada a missa de sétimo dia, à qual compareceu uma multidão que se deslocou em diversos ônibus, principalmente de Santo Amaro. A missa foi campal, pois a igreja local não comportava a todos. Também em Santo Amaro foi celebrada missa de sétimo dia.

          Após o enterro, continuaram as indagações sobre a motivação do crime e sobre a identidade do criminoso. Mas, sobre o autor do crime, alguns dias depois, o Jornal Diário da Tarde, de Florianópolis, afirmava que “não há notícias dos criminosos”[16]. E continua: “A população de Santo Amaro da Imperatriz, sacudida por intensa tensão nervosa, exige das autoridades policiais a prisão dos criminosos”[17]. Muito se falou que a autoria do crime era de alguns membros da comissão de saúde pública, entre eles um policial que estava em Santo Amaro prestando serviços. Mas as investigações estavam sob a responsabilidade da polícia e era preciso esperar pelas conclusões do respectivo inquérito. Era preciso esperar pelos laudos. Essa situação gerou um clima de instabilidade com relação à segurança pública. Muitos temiam que os fatos poderiam facilmente se repetir e, como os criminosos não haviam sido identificados e presos, o medo e a precaução tornaram-se comuns entre a população. “Era comum à noitinha as pessoas de Santo Amaro pregarem as portas e janelas das residências, temendo a ação dos criminosos”, afirma Teresinha Thiesen[18].

          Porém, há informações de que na véspera da missa do sétimo dia de falecimento, o principal acusado pelo bárbaro crime teria atentado contra sua própria vida: teria tomado veneno e morrido intoxicado. Entretanto, tornou-se corrente a versão de que este suicídio não tenha passado de uma simulação, para encobrir o suspeito pelo crime que, segundo alguns, evadiu-se da região. Seu comparsa no crime, ao saber do suposto suicídio do companheiro, teria ficado “louco” e, por isso, foi internado no Hospital Colônia Santana, destinado a pacientes com distúrbios psiquiátricos.

          Ao saber desses fatos – e diante da demora da polícia em apresentar o resultado das investigações –, a população ligou-os entre si e deles extraiu sua própria conclusão a respeito da autoria do crime. “E nós, eu e o Elídio, fomos acusados pela polícia como sendo os criminosos. Mas éramos inocentes. Tivemos que depor, por diversas vezes... Tentaram fazer com que assumíssemos a autoria de um crime que não cometemos”, afirma Teresinha Thiesen[19]. Segundo o Livro do Tombo da Paróquia de Santo Amaro, até o final do ano de 1961 “nenhuma revelação sobre as pesquisas da polícia técnica, impressões digitais, sangue, etc...“[20] havia sido divulgada. Ainda segundo a mesma fonte, “o médico legista do crime era o próprio pai”[21] do suspeito. “Até hoje não se soube ainda o resultado dos exames”, desabafa Teresinha Thiesen[22]. Indagada se, diante dos fatos, a justiça foi feita, e se o crime foi esclarecido, a resposta, segundo Teresinha Thiesen, é “não”[23].

          E do inquérito policial, após esse episódio, pouco se soube. Talvez tenha sido arquivado...

          Nesse ínterim, a notícia do acontecido se espalhou por toda a região, e Maria Amida tornou-se objeto de devoção de centenas de pessoas que mensalmente se dirigiam ao seu túmulo, suplicando sua intercessão. O tempo foi passando e a memória de Maria Amida, aliada à versão de que teria preferido morrer a perder a virgindade, tomava proporções sempre maiores; inclusive uma fotografia sua foi reproduzida e distribuída entre os interessados. “Todo mundo queria uma foto de Amida; quase todas as casas, em Santo Amaro, tinham uma fotografia dela”, afirma Teresinha Thiesen[24].

          Os fatos relacionados à trágica morte de Maria Amida foram muito comentados em toda a região e também registrados nos anais da Paróquia de Santo Amaro. O Livro de Crônicas da residência dos franciscanos assim os descrevem: 

 
“Dia 25 de novembro (de 1961), calcula-se às 1h30min da madrugada, foi barbaramente morta com umas cinco machadadas na cabeça, a empregada do bar Elídio Thiesen, natural de Taquaras, Paróquia de Angelina. Houve indícios de violação, mas ela morreu virgem. Mártir da virgindade? Deus o sabe”[25].

          O Livro do Tombo da referida paróquia também dá sua versão dos fatos, explicitando alguns detalhes do suspeito do crime, nestes termos:

 
“Aos 25 de novembro, durante a noite, houve diversos assaltos e roubos. No bar Elídio Thiesen foi morta pela 1h30min da madrugada a empregada Maria Amida Kamer, natural de Taquaras. Foi um crime bárbaro. A suspeita caiu no farmacêutico (suprimimos o nome do suspeito), residente em Palhoça, que atualmente trabalhava em Santo Amaro. O médico legista do crime era o próprio pai”[26].

A cronista do convento Santa Rosa de Lima, assim como a maioria da população de Santo Amaro, associou o suicídio do membro da comissão de saúde pública ao assassinato de Maria Amida. Eis o texto:

 
“O dia 25, festa de Santa Catarina, foi um dia triste para Santo Amaro, pela morte de uma moça assassinada por um desconhecido. A cidade toda ficou abalada. A moça era boa Filha de Maria e queria naquele domingo ainda ir à Comunhão, quando o criminoso pôs fim em sua vida. Mas, o malfeitor não teve sossego e terminou por se suicidar”[27].

          Maria Amida era uma jovem de saliente religiosidade: era Filha de Maria[28] e, segundo Terezinha Matilde Gerent Thiesen:

 
 “todas as noites era sagrado a Maria Amida rezar o terço ajoelhada ao lado de sua cama. Cheguei a dizer-lhe que poderia rezar sentada ou deitada na cama, e ela me respondeu que estava acostumada a rezar desta maneira desde sua infância e, por isso, preferia rezar ajoelhada. Até no dia do crime, o rosário de Amida estava sobre a penteadeira, localizada ao lado da cama, indicando que ela havia rezado antes de dormir. Até hoje tenho saudades dela”[29].

          Como acima afirmamos, a versão de que Maria Amida deu a própria vida em troca da virgindade tornou-se corrente e, dessa forma, poderia ser considerada mártir, mártir da virgindade. Centenas de pessoas a ela recorriam em busca de graças e de conforto espiritual. Até o autor do Livro do Tombo da Paróquia de Santo Amaro, supostamente o Pe. Frei Fidêncio Feldmann, parece estar imbuído dessa versão ao afirmar: “Houve indícios de violação, mas ela (Maria Amida) morreu virgem. Mártir da virgindade? Deus o sabe”[30]. Por sua vez, Teresinha Thiesen afirma: “Eu acredito que Amida morreu virgem”[31] ao associar as virtudes de cunho religioso tão presentes no cotidiano da Maria Amida. Salientamos que o Pe. Frei Fidêncio, na manhã do dia em que o crime foi cometido, foi um dos que primeiro soube do acontecido e visitou a vítima. Portanto, tornou-se testemunha ocular de parte dos fatos.

          Na década de 1970, Ilda Francisca Vieira[32], hoje com 80 anos de idade, residente em Poço Fundo, em Santo Amaro da Imperatriz, afirma ter alcançado uma graça relacionada a problemas de saúde, após pedir a intercessão de Maria Amida. Segundo Ilda Francisca Vieira:

 
“Eu estava muito doente. Tinha pedra na vesícula havia 25 anos. Sentia muitas dores, cólicas; estava toda inchada e não conseguia mais trabalhar. Sofria muito. Por muitos anos fazia tratamento de saúde com médicos em Florianópolis. Havia sido até marcada a cirurgia para a extração das referidas pedras. Mas, antes de me submeter à cirurgia, fui visitar, juntamente com meu filho, meu irmão Valmor Manoel Vieira, que morava em Alfredo Wagner. Na volta para casa, ao passar diante do cemitério de Taquaras, pedi a Deus por intercessão de Maria Amida a graça de ficar curada sem ter que fazer a cirurgia.  Ao chegar em casa, já me sentia melhor e, poucos dias após, não senti mais as incômodas e quase insuportáveis dores oriundas das pedras na vesícula. Retornei ao médico e, como não sentia mais dores, suspendi a realização da cirurgia.  Estava curada. Foi Maria Amida quem intercedeu por minha cura. Até hoje não senti mais dores relacionadas às complicações de saúde que tinha. Por isso, alguns meses depois, levei e depositei em seu túmulo uma placa em agradecimento pela graça alcançada; depois disso, passei a visitar, anualmente, levando flores e velas, na véspera de finados, à sepultura de Maria Amida. Meu filho Orlando Antônio de Souza também alcançou uma graça por intercessão dela: sofria de reumatismo, gota. Todos os anos, no dia do martírio, 25 de novembro, mando rezar uma missa pela alma de Maria Amida. Sou muito agradecida a ela”[33].

          Ainda hoje seu túmulo, localizado no cemitério de Taquaras, em Rancho Queimado, atesta a crescente devoção a Maria Amida, materializada em algumas placas que os fiéis ali depositaram em sinal de agradecimento pelas graças alcançadas por seu intermédio.  Segundo Teresinha Thiesen,

 
“Maria Amida está no céu, com toda certeza. Não tenho dúvidas disso. Algumas pessoas mandavam ou ainda mandam rezar missa para Amida, no dia 25 de novembro, afirmando textualmente que ‘Amida me ajuda muito’. Embora eu seja um pouco cética, acredito na idoneidade das pessoas que afirmam ter recebido graças por intermédio de Maria Amida”[34].

          A história do assassinato de Maria Amida tornou-se assunto comum, e foi incorporada à cultura local. Inclusive uma canção foi composta e executada pela dupla Teimoso e Teimosinho, na rádio Clube de Lages, bem como em outras emissoras de rádio da região da Grande Florianópolis. A referida canção, cuja letra vem publicada abaixo, menciona o que seus autores entenderam sobre os últimos momentos da vida de Maria Amida e a repercussão de seu assassinato. Publicamos, também, sob o título “Reclamação de Maria Amida”, um poema anônimo em que seu autor, colocando-se no lugar da vítima, destaca o firme desejo de que sua alma vá para o céu e a simulação da despedida de seus familiares.

 

Reclamação de Maria Amida

I

Ó meu Deus que agonia
Que não posso falar
Mas tenho fé em Deus
De minha alma se salvar
Penso e tenho certeza
Que para o inferno não irá.

II

Ó meu Deus não esperava
De tão cedo eu morrer
Ausente de pai e mãe
Morro e não posso ver
Tanto bem que me queriam
E não puderam me valer.

III

Ó meu pai e minha mãe
De minha estimação
Vossa filha foi pegada
Pelas mãos destes ladrões
De vós eu morro ausente
Adeus, adeus meus irmãos.

IV

Que desgraça neste mundo
Meu coração está sofrendo
Por causa destes desgraçados
Vou acabar morrendo
Botei a mão no meu corpo
Senti o meu sangue correndo.

V

Ai meu Deus que tanta dor
Tenha pena do meu sofrer
Tanto que gritei por Deus
Mas não pode me valer
Nas mãos destes criminosos
Meu resultado é morrer.

VI

Ai meu Deus, ai meu Deus
Tenha de mim compaixão
Para me levar ao céu
Para me dar salvação
Que eu fui assassinada
Pelas mãos desses ladrões.

VII

Adeus pai e minha mãe
Adeus desta filha querida
Com 20 anos de idade
Eu perdi a minha vida
Adeus ó minhas amiguinhas
No mundo por despedida.

VIII

Me mataram inocente
Inocente vou morrendo
A virgem nossa senhora
Jesus no céu estão me vendo
Malvados sofram também
Assim como eu estou sofrendo.

IX

A dor no meu coração
Ai que dor agoniada
Deus no céu é testemunha
Que descubram os malvados
Para sofrerem na cadeia
E morrerem crucificados.

X

Ai meu pai e minha mãe
Já perdi a minha vida
Sinto o sangue correr
Da minha cabeça doída
Morrendo ainda disse
Adeus minha mãe querida.

XI

Adeus minhas amiguinhas
E todos os meus conhecidos
A paixão de deixar o mundo
Eu sempre levo comigo
E na hora do descanso
A saudade irá comigo.

XII

Quando eu vinha da escola
Sempre rindo e contente
Não pensava em perder a vida
Nesta hora de repente
Sem ninguém para me acodir
No meio de tanta gente.

XIII

Vou embora para o céu
Já que estou confessada
Pelas mãos dos santos anjos
Para a glória sou levada
Vou para a eternidade
Para viver descansada.

XIV

Ó meus Deus este meu sangue
Que hoje aqui derramei
Que sirva de testemunha
Do trabalho que passei
Judiada e sem culpa
Por esta nunca esperei.

XV

Entrego minha alma a Deus
Aos cristãos e ao Salvador
Maria Amida disse assim
Fechou os olhos e expirou
Ausente de seus irmãos
E dos pais que a criou.

XVI

Teimoso e Teimosinho
Quem escreveu estes versos
Quem matou Maria Amida
Ainda não foi descoberto.

 

O bárbaro crime em Santo Amaro da Imperatriz

I

A 25 de novembro
Deu-se uma coisa indecente
Mataram Maria Amida
Numa hora de repente
Sem ter quem acodisse
No meio de tanta gente.

II

Pediu para seu patrão
Bem cedinho lhe chamar
Já tinha se confessado
Queria sacramentar
Não sabendo nesta noite
Que ela ia se acabar.

III

Às cinco horas da manhã
A mocinha foi chamada
O menino que chamou
Voltou pra traz assustado
Papai a Maria Amida
Vejo-a toda ensangüentada.

IV

Quando ouviu estas palavras
Quase não acreditou
Chegando na cama dela
Aquela desgraça encontrou
Abriu a janela ligeiro
E pela polícia gritou.

V

Quando a polícia chegou
Viu o sangue correndo
Chamou o povo da vila
Para ir reconhecendo
Dentro da minha casa
A desgraça que está havendo.

VI

Logo ligeiro mandaram
Chamar o senhor delegado
Para cercar com a polícia
Ver se pegava os malvados
Quando foram procurar
Eles não foram encontrados.

VII

Quando chegou o recado
Que o seu patrão mandou
Os malvados dos ladrões
Sua filha assassinou
Sua mãe levou um choque
Que no chão logo tombou.

VIII

Seu pai e sua mãe chorando
O povo chorou também
Por causa desta mocinha
Que todos queriam bem
Amor santo como este
Não se encontra em mais ninguém.

IX

Maria Amida dormindo
O seu sono descansado
Quando se acordou, olhou
Esbarrou com os malvados
Gritou para o seu patrão
Eles mataram-na com machado.

X

Deus levou esta mocinha
Para achar este machado
A medalha de Nossa Senhora
No cabo estava enleada
Pedindo clemência
Para achar os malvados.

XI

Compaixão para sua mãe
Que não teve a alegria
Que nem a própria bênção
Não lhe deu naquele dia
Nas mãos desses desgraçados
Sofrendo tanta agonia.

XII

O povo de Santo Amaro
No outro dia apavorado
Combinaram com a polícia
Para pegar os malvados
Se a ronda fosse a noite
Os malvados não teriam entrado.

XIII

Ó meu Deus que compaixão
Quase não podia ver
Estava a coitada na Eça
E seu sangue a correr
Coitadinha não pensava
Desta desgraça morrer.

XIV

Seu patrão estava triste
A patroa muito chorou
Só pensando na mocinha
Que tanto lhes ajudou
Vieram estes desgraçados
Minha querida matou.

XV

Eu estou pedindo a Deus
E estes Santos abençoados
Para pegar estes ladrões
Criminosos excomungados
Para botar na cadeia
Eu quero ficar vingado.

XVI

Pobre mãe muito chorava
E clamava a sua vida
Como é que poderia ficar
Sem sua filha querida
Botou ela no estudo
Para perder a sua vida.

 

ABREVIAÇÕES:
APSAI = Arquivo da Paróquia de Santo Amaro da Imperatriz.
AIDP = Arquivo das Irmãs da Divina Providência.
ABPESC = Acervo da Biblioteca Pública do Estado de santa Catarina.

 

NOTAS DE FIM

[1] I Livro de Crônicas (1900-1969), da Residência dos Franciscanos, p. 153. APSAI.

[2] Livro de Crônicas (1910-1968), do Convento Santa Rosa de Lima, s/p. AIDP.

[3] Livro de Crônicas (1910-1968), do Convento Santa Rosa de Lima, s/p. AIDP.

[4] Livro de Crônicas (1910-1968), do Convento Santa Rosa de Lima, s/p. AIDP.

[5] Livro de Crônicas (1910-1968), do Convento Santa Rosa de Lima, s/p. AIDP.

[6] I Livro de Crônicas (1900-1969), da Residência dos Franciscanos, p. 157. APSAI. Em novembro de 1967, para evitar as enchentes, duas dragas do Recife começaram a dragagem do Rio Cubatão. O “padre vigário e as autoridades, numa reunião no Salão Paroquial, conseguiram da parte dos colonos a doação dos terrenos para a retificação do rio”. I Livro de Crônicas (1900-1969), da Residência dos Franciscanos, p. 191. APSAI.

[7] Entre os estabelecimentos roubados constam: dois bares, um de Elídio Thiesen e outro de Pascoal Gomes; uma fábrica de bebidas, de Orlindo Espíndola; e duas lojas, uma de Aidê Cunha (proprietária do dormitório, onde a Comissão de Vacinação estava hospedada) e outra de João Marcolino Costa. Jornal Diário da Tarde. Florianópolis, Ano XXVII, nº 129, de 28 de novembro de 1961, p. 1. ABPESC. Cf. também I Livro de Crônicas (1900-1969), da Residência dos Franciscanos de Santo Amaro, p. 157. APSAI.

[8] Jornal Diário da Tarde. Florianópolis, Ano XXVII, nº 129, de 28 de novembro de 1961, p. 1. ABPESC.

[9] Entrevista oral concedida por Teresinha Gerent Thiesen, ao Autor, em 17 de novembro de 2004.

[10] Trata-se de: Elvíria, Melchior, Dalci Bernadete, Mônica, Dalmo Antônio, José Bruno, Lúcia, Celi Terezinha, Maria de Lourdes, Inês, Nelito Bonifácio e Tânia.

[11] Livro de Crônicas do Convento Santa Rosa de Lima (1910-1968), s/p. AIDP. A Pia União das Filhas de Maria da Paróquia de Santo Amaro foi fundada no dia 21 de janeiro de 1906. A provisão para a sua fundação data de 20 de dezembro de 1905 e é assinada por Dom Leopoldo Duarte e Silva. Cf. I Livro do Tombo (1895-1917), da Paróquia de Santo Amaro, p. 60v, APSAI e História da Pia União das Filhas de Maria em Santo Amaro do Cubatão. S/l, s/e, s/d. APSAI. A Pia União das Filhas de Maria é uma associação de moças cristãs que, militando sob a bandeira de Maria Imaculada, tem por fim evitar o mal e progredir na piedade, na honestidade dos costumes e na observância dos deveres cristãos, mediante a proteção da Virgem Imaculada e de Santa Inês e as regras que a Pia União prescreve. A Pia União das Filhas de Maria tem sua origem na Ordem dos Cônegos regulares de Santo Agostinho. Sua origem remonta ao século XII, quando se instituiu, em Porto de Ravena (Itália), a Pia União de Filhos e Filhas de Maria. Mais tarde, no século XVI, a Pia União foi fundada na França na Paróquia de Mattaincourt, espalhando-se em seguida por toda a França, especialmente nas escolas das Irmãs de Caridade. O lugar, porém, em que a Pia União teve seu pleno desenvolvimento e complemento foi na Paróquia de Santa Inês extra-muros, de Roma, onde foi erigida canonicamente em 1864, sendo aprovadas as suas regras. Fonte: http://www.catolicosempre.org.br/associa/fmaria.htm – Consulta realizada em 17 de outubro de 2004.

[12] Jornal Diário da Tarde. Florianópolis, Ano XXVII, nº 129, de 28 de novembro de 1961, p. 1. ABPESC.

[13] I Livro de Crônicas (1900-1969), da Residência dos Franciscanos de Santo Amaro, p. 157. APSAI.

[14] Entrevista oral concedida por Teresinha Gerent Thiesen, ao Autor, em 17 de novembro de 2004.

[15] Livro nº 12-C de Registro de Óbitos, f. 146v, nº 3.387, no Registro Civil das Pessoas Naturais, Jurídicas, Títulos, Documentos e outros papéis, da Comarca de Santo Amaro da Imperatriz. No Livro de Registro de Óbitos consta Kamer sem o “s” e no túmulo consta Kamers, com “s”.

[16] Jornal Diário da Tarde. Florianópolis, Ano XXVII, nº 129, de 28 de novembro de 1961, p. 1. ABPESC.

[17] Jornal Diário da Tarde. Florianópolis, Ano XXVII, nº 129, de 28 de novembro de 1961, p. 1. ABPESC.

[18] Entrevista oral concedida por Teresinha Gerent Thiesen, ao Autor, em 17 de novembro de 2004.

[19] Entrevista oral concedida por Teresinha Gerent Thiesen, ao Autor, em 17 de novembro de 2004.

[20] II Livro do Tombo (1917-1977), da Paróquia de Santo Amaro, p. 77. APSAI.

[21] II Livro do Tombo (1917-1977), da Paróquia de Santo Amaro, p. 77. APSAI.

[22] Entrevista oral concedida por Teresinha Gerent Thiesen, ao Autor, em 17 de novembro de 2004.

[23] Entrevista oral concedida por Teresinha Gerent Thiesen, ao Autor, em 17 de novembro de 2004.

[24] Entrevista oral concedida por Teresinha Gerent Thiesen, ao Autor, em 17 de novembro de 2004.

[25] I Livro de Crônicas (1900-1969), da Residência dos Franciscanos de Santo Amaro, p. 157. APSAI.

[26] II Livro do Tombo (1917-1977), da Paróquia de Santo Amaro, p. 77. APSAI.

[27] Livro de Crônicas do Convento Santa Rosa de Lima (1910-1968), s/p. AIDP.

[28] Livro de Crônicas do Convento Santa Rosa de Lima (1910-1968), s/p. AIDP.

[29] Entrevista oral concedida a Sílvia Thiesen Müller, em outubro de 2004.

[30] I Livro de Crônicas (1900-1969), da Residência dos Franciscanos de Santo Amaro, p. 157. APSI.

[31] Entrevista oral concedida por Teresinha Gerent Thiesen, ao Autor, em 17 de novembro de 2004.

[32] Ilda Francisca Vieira nasceu em 17 de abril de 1924, no Braço São João, em Santo Amaro. É filha de Manoel José Vieira e de Francisca Joaquina Vieira. Casou-se com Antônio Domingos de Souza.

[33] Entrevista oral concedida por Ilda Francisco Vieira, ao Autor, em 21 de outubro de 2004.

[34] Entrevista oral concedida por Teresinha Gerent Thiesen, ao Autor, em 17 de novembro de 2004.

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