
COLUNISTA

Coluna atualizada em: 30/10/2008
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NOS PERCALÇOS DA HISTÓRIA:
DO ALTO BIGUAÇU A ANTONIO CARLOS
Toni JOCHEM
Historiador
Apesar de ser uma extensão física da colônia São Pedro de Alcântara, a localidade do Alto Biguaçu e suas imediações aos poucos se desenvolveu. Lá, em 30 de abril de 1838, mediante o Decreto Nº. 100, foi autorizada a construção de uma capela e cemitério. E quase três décadas depois, mediante a Lei Nº. 544, de 02 de maio de 1864, criou-se a Freguesia (paróquia) de São Pedro Apóstolo do Alto Biguaçu[1], desmembrada da de São Pedro de Alcântara, e por razões diversas, nunca foi oficialmente instalada[2].
Registra a história que:
”Antônio Carlos, antigo distrito de Biguaçu, começou a ser colonizado em 1830, quando João Henrique Schoeting, juntamente com outras dez famílias e alguns homens solteiros assentaram-se às margens do Rio do Louro[3]. Constitui-se de uma extensão física do povoamento da Colônia São Pedro de Alcântara[4], primeiro núcleo de colonização alemã em Santa Catarina (1829)”[5].
Os imigrantes que se estabeleceram em São Pedro de Alcântara e nas cabeceiras dos rios Louro e Biguaçu eram provenientes, em sua maioria, da Região do Eifel[6] e do Hunsrück, na Alemanha.
A imigração alemã para o Brasil pode ser classificada em duas categorias de acordo com o método aplicado e objetivos propostos: imigração de parceria e imigração baseada na pequena propriedade. A imigração de parceria utilizava-se do método do “endividamento” e era voltada para o Sudeste brasileiro, principalmente São Paulo, considerando a existência, naquela província, de grandes latifundiários; visava à resolução do problema decorrente da extinção paulatina da escravidão relacionado à falta de mão-de-obra no cultivo do café – que a partir de meados do século XIX passa a ser o principal produto de exportação do Brasil. A imigração baseada na pequena propriedade era composta por colonos livres e foi dirigida principalmente ao Sul do Brasil; tinha entre seus objetivos, povoar a região e desenvolver uma agricultura voltada ao abastecimento do mercado interno. Pretendia o governo brasileiro, com a colonização baseada no regime de pequenas propriedades e do trabalho livre, profundas mudanças na realidade brasileira: demográficas (povoamento), morais (dignificação do trabalho manual), sociais (instituição de uma classe média), militares (defesa das fronteiras) e econômicas (desenvolvimento do Brasil).
Neste contexto, os alemães eram considerados bons agricultores e, portanto, ideais para povoar vazios demográficos. Assim, fundaram-se algumas colônias pelo Brasil: em 1818, na Bahia, a Colônia Leopoldina; em 1820, Nova Friburgo, no Rio de Janeiro; e, para encerrar, em 1822, com a Colônia São Jorge dos Ilhéus, no Sul baiano, o ciclo da colonização alemã na região montanhosa do litoral médio brasileiro. Mas, a colonização alemã no Brasil, sob o regime de pequena propriedade, se concentrou em suas Províncias Meridionais (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná), onde os imigrantes deixaram sua marca. Assim, pode-se dizer que:
“Os descendentes de imigrantes que se estabeleceram no Alto-Biguaçu, construíram ao longo do século XX, um patrimônio cultural bastante expressivo. Apesar do contato antigo e contínuo com Florianópolis e região, Antônio Carlos ainda mantém características marcantes da colonização do imigrante alemão, principalmente na zona rural. Junto a alguns valores culturais, pratos típicos ou o dialeto ainda hoje falado, encontramos ao percorrer suas localidades, edifícios isolados que marcam sua história”[7].
A formação da população de Antônio Carlos pode ser caracterizada por quatro principais etnias: luso-brasileira de origem açoriana, alemã, libanesa e negra[8]. No entanto, predominam os descendentes da matriz étnica alemã, provenientes, em sua maioria, das colônias vizinhas, tais como: São Pedro de Alcântara[9], Santa Isabel[10] e Piedade[11], além da Colônia Leopoldina[12] localizada nas imediações. Seu nome foi uma homenagem ao estadista brasileiro Antônio Carlos Ribeiro de Andrade[13], político mineiro, com destacada atuação na Revolução de 1930 imposta à população local. Antônio Carlos era integrante de uma das famílias de maior tradição na política brasileira. Em julho de 1963, foi cogitada na Câmara Municipal de Biguaçu a conveniência da mudança da denominação “Antônio Carlos” para “Reitzburgo” em homenagem a João Adão Reitz, pioneiro da colonização no vale do Rio Rachadel. Após acalorada discussão, a proposta não obteve aprovação daquela casa legislativa[14]. Além da questão do nome a se adotar para um município, outra estava na pauta daqueles que estavam a construir a história política de Alto Biguaçu, ou seja, a sede onde se instalaria a administração do então Distrito:
“Pela Lei Municipal Nº. 121 de Biguaçu/SC, de 15 de julho de 1919, era criado o quarto Distrito de Paz na localidade de Louro, cuja instalação ocorreu em 02 de agosto do mesmo ano. A sede do Distrito foi localizada na casa de Leopoldo Freiberger, que possuía também uma casa comercial de secos e molhados, ambas situadas no entroncamento das estradas da Capela do Louro e Santa Maria. O proprietário era político influente, tendo exercido os cargos de segundo secretário da Mesa da Câmara em 1919 e chefe do Poder Executivo Municipal no período de 1927 a 1930”[15].
Mas, a sede do Distrito do Louro foi transferida para outras localidades até ser confirmada, em definitivo, em 1938, no atual centro urbano de Antônio Carlos:
“Em 1930, a sede do Distrito de Louro, era transferida para o local chamado ‘Encruzilhada’ ou Coração de Jesus, por se encontrar ali um pequeno povoado e uma Ermida dedicada ao Sagrado Coração de Jesus. Passava também a denominar-se Antônio Carlos, o nome do Distrito, através do Decreto Nº. 24, de 09 de dezembro de 1930. (...). Pelo Decreto Estadual Nº. 489 de 15 de fevereiro de 1934, era a sede transferida novamente ao Louro, sua sede inicial. Porém, as repartições públicas (correio e cartório) permaneceram em Coração de Jesus, o que impediu o retorno. Em 1938, com a elevação à categoria de Vila, foi confirmada a sede em definitivo, e delimitados os perímetros urbano e suburbano da Vila de Antônio Carlos, com vigência em 01 de janeiro de 1939”[16].
Localizado na região da Grande Florianópolis, em Santa Catarina, distante 33 quilômetros da capital do Estado, Antônio Carlos foi emancipado político-administrativamente em 06 de novembro de 1963, pela Lei Estadual Nº. 928[17].
Atualmente, o município é integrado pelas seguintes localidades: Egito, Alto Egito, Divisa, Rocinha, Rancho Miguel, Morro do Gato (hoje Morro da Glória), Nova Inglaterra (atualmente Santa Maria), Braço do Norte, Alto Braço do Norte, Capela do Louro, Louro, Santa Bárbara, Rio Farias de Baixo, Rio Farias de Cima, Alto Rio Farias (ex-Rio Antinhas), Canto dos Petry, Colônia Leopoldina, Vargem dos Pinheiros, Faxinal (hoje Reserva Ecológica Caraguatá), Espeito (Espeto), Vila Doze de Outubro, Cantos dos Guesser, Rachadel (ex-Salto), Morro da Gaita (Morro dos Hoffmann), Canto do Seu Belmiro, Canto da Sinhá Dadinha, Morro dos Cunha, Usina, Encruzilhada (posteriormente Coração de Jesus), hoje sede municipal de Antônio Carlos, Canudos, Califórnia, Riacho Negro e Rosápolis (ex-Bananal)[18]. Com relação aos aspectos demográficos, a população total do município era de 6.434 de habitantes, de acordo com o Censo Demográfico do IBGE (2000); uma estimativa da população residente para 2006 apresenta 7.041 habitantes[19]. Vale ressaltar que a maioria absoluta desse total professa a religião católica. Quanto à área territorial[20], Antônio Carlos possui 229,12 km2, representando 0.2403% do Estado de Santa Catarina, 0.0407% da Região Metropolitana de Florianópolis e 0.0027% de todo o território brasileiro[21]. Faz fronteira com os municípios de Biguaçu, São Pedro de Alcântara, Angelina, São José, São João Batista e Major Gercino.
Eis, portanto, uma rápida caracterização do município de Antônio Carlos, objeto de estudo desse artigo.
[1] Mais informações cf. Doc. 28, Leis 1857-1866, pp. 146v-147, CM-ALESC. Veja ainda Doc. 22, ATAS, 1867, p. 142, CM-ALESC.
[2] Cf. KREMER, Rogério. Antônio Carlos – 175 Anos de História – 1830-2005. Biguaçu: Litográfica, 2007, p. 205.
[3] Na região do Louro, instalaram-se, entre outras, as seguintes famílias: Schenk/Vieira, Geissbusch/Kraemer, Kuber (solteiro), Hoener, Meinschein (solteiro), Sieglin (solteiro), Schwart/Both, Crels (viúva), Holze (solteiro), Schwarz/Schneider, Schwarz/Hermes, Schwartz (solteiro), Hermes/Reimaelus, Jochem (viúvo), Bins/Pudinger, Emmerich/Vhors, Soechting/Silva, Revoets (solteiro) e Ruppel/Kickn, cf. MATTOS, p. 61.
[4] Interessante observar que, não raras vezes, as denominações das colônias homenageavam a família imperial; assim temos as seguintes colônias: São Leopoldo – RS, Petrópolis – RJ, Santa Amélia – PE, São Pedro de Alcântara das Torres – RS, Teresópolis – SC, Leopoldina – SC, Santa Leopoldina – ES, Santa Isabel – SC e ES, entre outras.
[6] A região de Eifel "tirou" de localidades como Brohl, Forst, Moselkern, Treis-Karden, Kaisersesch, Müsntermaifeld etc. parte dos emigrantes enviados a Santa Catarina em 1828.
[8] Veja mais em: REITZ, Raulino. Alto Biguaçu – Narrativa Cultural Tetrarracial. Florianópolis: Ed. Lunardelli e Ed. da UFSC, 1988.
[9] A Colônia São Pedro de Alcântara foi fundada em março de 1829 por 635 imigrantes alemães, constituindo-se a mais antiga colônia alemã fundada em Santa Catarina. Foi elevada à Freguesia em 1844 através da Lei Nº. 194, sendo emancipada político-administrativamente do município de São José mediante Lei Nº. 9.534 datada de 16 de abril de 1994.
[10] Fundada em 1847 por imigrantes recém-chegados da Alemanha, a Colônia Santa Isabel foi composta, em sua maioria, por agricultores e provenientes da região do Hunsrück, no atual Estado da Renânia-Palatinado. Professavam a religião católica e a luterana sendo que, nesta última, Santa Isabel tem a primazia cronológica sobre todas as colônias fundadas no Estado de Santa Catarina. Instalada às margens do Caminho-de-Tropas que ligava o Litoral catarinense ao Planalto serrano, a denominação da colônia é uma homenagem prestada pelo Governo constituído à Princesa Isabel. Inicialmente, além da sede da colônia, localizada num terreno excessivamente montanhoso e impróprio para a agricultura, foram fundadas e povoadas as linhas coloniais de Löffelscheidt e Primeira Linha. Em 1860, o Governo resolveu remeter novos imigrantes para a Colônia, a qual desde 1851 crescia apenas pelo desenvolvimento interno de sua população, sem receber novos imigrantes. O núcleo foi ampliado e submetido ao regime colonial com a chegada de novos imigrantes resultando na fundação de novas linhas coloniais, entre elas: Segunda Linha, Terceira Linha, Quarta Linha, Quinta Linha, Rancho Queimado, Linha Scharf e Taquaras.
[11] Em 1847, foi fundada na Armação da Piedade – localizada no continente da Baía Norte da Ilha de Santa Catarina – uma Colônia Alemã formada por, aproximadamente, 150 imigrantes chegados durante os meses de janeiro a março daquele ano. Todos professavam a religião católica. Sem regulamento especial, a Colônia Piedade era dirigida pelos comandantes da fortaleza de Santa Cruz, localizada na Ilha de Anhatomirim. As terras eram íngremes, destituídas de fertilidade e, portanto, impróprias para a agricultura. Por isso, os imigrantes foram se retirando. Dos 150 imigrantes com os quais a Colônia fora fundada havia, um ano após, apenas 120; em 1849, 114; em 1850, 105 e em 1854 somente 54. Em 1856, o censo demográfico apurou 41 habitantes para a Colônia. Finalmente, também os mais esperançosos se deixaram vencer migrando para as regiões vizinhas, especialmente para Biguaçu. Extinguiu-se, assim, a Colônia Piedade.
[12] Colônia Leopoldina é uma homenagem a Dona Leopoldina Teresa Francisca Carolina Miguela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon (Rio de Janeiro, 13 de julho de 1847 — Viena, 7 de fevereiro de 1871), princesa do Brasil e duquesa de Saxe-Coburgo-Gota, foi a segunda filha de D. Pedro II do Brasil. A referida colônia foi um empreendimento particular de duas léguas em quadro de terras, que foram medidas em 1847 e concedidas em 24 de fevereiro de 1848, aos empresários Sheridan Telghuys Filho e Henrique Ambauer Schutel. De Hamburgo, Alemanha, em 1849, vieram para a Colônia Leopoldina nove pessoas; em 1852, mais cinco imigrantes. Pela inacessibilidade das terras nenhuma delas se fixou na área. Em 1853, foram estabelecidas quatro famílias alemãs e uma belga. Mas a colônia não se desenvolveu. Em 1849, havia ali apenas um estabelecimento de criação de gado e nenhum colono. Como se demorou a vinda de novos imigrantes, foram estabelecidos brasileiros. Em 1853, foram colocados em 14 lotes de terra, 38 colonos belgas e alemães, procedentes quase todos da fracassada colônia da Armação da Piedade. Cf.: BESEN, José Artulino; PAULI Evaldo. A Comunidade de Antônio Carlos. Antônio Carlos: Prefeitura Municipal e Paróquia Sagrado Coração de Jesus, 1983, p. 6. Cf. também REITZ, Raulino. Alto Biguaçu – Narrativa Cultural Tetrarracial. Florianópolis: Ed. Lunardelli e Ed. da UFSC, 1988, pp. 46ss. Veja ainda: Doc. 20, Ofícios 1849-1857, de 22/04/1851, pp. 86-7, CM-ALESC. Cf. também KREMER, Rogério. Antônio Carlos – 175 Anos de História – 1830-2005. Biguaçu: Litográfica, 2007, p. 118.
[13] Antônio Carlos Ribeiro de Andrada nasceu em Barbacena-MG a 05 de setembro de 1870 e faleceu no Rio de Janeiro-RJ, em 02 de janeiro de 1946.
[14] REITZ, Raulino. Alto Biguaçu – Narrativa Cultural Tetrarracial. Florianópolis: Ed. Lunardelli e Ed. da UFSC, 1988, p. 176.
[17] BESEN, José Artulino; PAULI Evaldo. A Comunidade de Antônio Carlos. Antônio Carlos: Prefeitura Municipal e Paróquia Sagrado Coração de Jesus, 1983, p. 6. Cf. também KREMER, Rogério. Antônio Carlos – 175 Anos de História – 1830-2005. Biguaçu: Litográfica, 2007, pp. 12 e 137ss.
[18] Cf. KREMER, Rogério. Antônio Carlos – 175 Anos de História – 1830-2005. Biguaçu: Litográfica, 2007, p. 11.
[20] Coordenadas: Latitude: -27 31 0 Gr. Min. Seg. Longitude: -48 46 03 Gr. Min. Seg.
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