FESTA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO
Toni JOCHEM
Historiador
“A Festa do Espírito Santo aqui em Santo Amaro tem uma história muito grande e variada devido o seu desenvolvimento, abusos antigos e reformas prescritas”.
Com características diferenciadas em cada região do Brasil, a Festa do Divino Espírito Santo é um evento folclórico-religioso composto de missas, novenas, procissões, peditório com a bandeira, festejos populares, shows com fogos de artifício, dentre outras atrações. Dada a sua importância no cenário folclórico-religioso de Santo Amaro da Imperatriz e com o objetivo de desvendar e registrar sua história, dividimos este capítulo em três partes distintas: a primeira fala sobre a origem da Festa do Divino Espírito Santo; a segunda, sobre a instituição da Festa em Santo Amaro e as inúmeras ações normativas que sofreu por parte do clero; e na terceira e última, abordamos sobre o atual ritual da Festa.
O culto do Espírito Santo, de acordo com o historiador português Moisés do Espírito Santo, tem origem na Antigüidade:
“Entre os israelitas, a Festa de Pentecostes era celebrada cinqüenta dias (sete semanas) depois da Páscoa, sendo uma das quatro festas importantes do calendário judaico: Páscoa, Omar, Pentecostes e Colheitas. Ela era conhecida, ainda, com nomes diferentes: das Ceifas, das Semanas, do Dom da Lei, e outros, tendo sido, primitivamente, uma festa agrária dos cananeus. Entre os hebreus, o termo shabüoth faz referência à festa que começa cinqüenta dias depois da Páscoa e marca o fim da colheita do trigo. ‘A Festa do Divino é um eco das remotas festividades das colheitas’. Já o culto ao Espírito Santo, sob a forma de festividade, no sentido que iria adquirir mais tarde, se cristaliza no início da Baixa Idade Média, na Itália, com um contemporâneo de São Francisco de Assis, o abade Joachim de Fiori (morto em 1202), que ensinava que a última fase da história seria a do Espírito Santo. Suas idéias chegaram à Alemanha e espalharam-se pela Europa”.
No século XII, o abade cisterciense calabrês Joaquim de Fiori, num complexo teológico-filosófico, formulou uma teoria sobre três idades da humanidade: a primeira, antes da lei ou tempo do Pai (Lei de Moisés); a segunda, sob a lei ou tempo do Filho (Novo Testamento) e, por fim, a última redentora, sob a graça ou tempo do Espírito Santo. Essa Era do Espírito Santo correspondia além da pregação de Joaquim de Fiori na Calábria, a de Amaury de Bène e Arnaldo de Vilanova em Paris, que profetizavam
“que a nova Idade, que os franciscanos denominavam do Espírito Santo, deveria substituir, num futuro próximo, a Igreja decadente que ao longo dos séculos se afastara dos princípios sãos e simples pregados pelo Salvador”.
E os ideais dessa pretendida Nova Era caracterizados pela paz, pela fraternidade e pelo amor entre todos os homens, manifestaram-se rapidamente por toda a Europa Ocidental. Na Alemanha, há registros de uma organização dedicada ao Divino Espírito Santo, durante a dinastia dos Othons (Oto IV, o Soberbo), no século XIII, que se destinava a lançar fundamentos de uma instituição de caridade, cujos bens eram oriundos de esmolas e eram destinados aos pobres nos anos de penúria.
“Fomes apertadas nos Estados Alemães determinaram um dos imperadores da dinastia Othon, a lançar os fundamentos desta instituição, como banco formado de esmolas para acudir a pobres nos anos de penúria. Da divindade que invocavam, do imperante que tomara a iniciativa nasceram os festejos religiosos, que a confraria imperial votava ao culto do Espírito Santo (...), devoção e costume que de lá se propagou pelos Estados da Europa cristã, cujos reis marcharam à frente da obra a seu modo civilizadora e humanitária, até que o povo lhes foi usurpar o privilégio e se apoderou da instituição pia”.
A investidura de Oto IV (1197-1218), o Soberbo, como Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, e a promoção de “cerimônias em louvor do Espírito Santo para socorrer os pobres” garantiram a simpatia dos adeptos da Nova Era e que, segundo Manuel de Lima,
“parece ter criado condições muito favoráveis ao desenvolvimento de um culto vincadamente laico com larga participação das classes populares, da nobreza e até das próprias famílias reais”.
E como os promotores eram reis, os festejos conservaram os aspectos de realeza. Da divindade que invocavam, nasceram os festejos religiosos ao Espírito Santo, cujo costume se propagou por toda a Europa.
“Invocava-se a proteção do Espírito Santo, significando a vinda da sociedade igualitária do futuro, a busca da opulência e da sabedoria, o verdadeiro Império do Espírito, segundo o modelo criado por Carlos Magno na França e descrito nas lendas de Arthur da Távola Redonda na Inglaterra e defendida no século XVII, nos Sermões do jesuíta Antônio Vieira, no Brasil, ao preconizar o Quinto Império”.
Há quem credite a instituição da festa a Carlos Magno (747-814). No ano 800, no dia 25 de dezembro, Carlos Magno foi coroado Imperador do Ocidente, na Basílica de São Pedro, em Roma, pelo Papa Leão III. A partir de então,
“seu nome correu o mundo como protetor da cristandade, dos eventos religiosos. E assim, necessariamente, em todas as vilas da Velha Europa cristianizada, durante as festas dos Santos Patronos, era coroado um imperador em lembrança da coroação de Carlos Magno; passou a Portugal, de Portugal às Ilhas Açores, dali ao Brasil”.
Já, “na França, a festa foi facilmente difundida. A Folia do Divino, assimilada rapidamente, foi chamada ‘Folias do Bispo Inocente’, solenizada anualmente em São Martinho, de Tours. Daí à Península Ibérica, Portugal e suas colônias foi em Portugal, a devoção ao Divino Espírito Santo teve início no século XIII. Há notícias da existência de uestão de tempo”.
Há informações baseadas em documentos do Arquivo de Alenquer, de que a primeira festa teria sido realizada no Convento de São Francisco da mesma vila, em 1323. Interessante observar que nesse ano, os exércitos de Dom Dinis e o de Dom Afonso quase chegam às vias de fato em Alvalade, perto de Lisboa; felizmente chegaram a novo armistício por intervenção da Rainha Isabel. Talvez esteja aqui a razão da instituição da primeira Festa do Divino Espírito Santo. Segundo Manuel de Lima,
“Os cronistas e historiadores portugueses estão de acordo no que se refere à introdução, a que poderíamos chamar de ‘oficial’, do culto do Espírito Santo em Portugal por iniciativa da Rainha Santa Isabel, com o patrocínio do Rei Dom Dinis”.
Dom Dinis I foi o sexto Rei de Portugal. Filho do Rei Afonso III com a infanta Beatriz de Castela, ocupou o trono de seu pai em 1279, reinado que perdurou até 1325. Afonso, apesar de ser o único filho legítimo de seu pai, o Rei Dom Dinis, não seria, de acordo com algumas fontes, o filho favorito para a sucessão de Afonso III, que preferia a companhia de Afonso Sanches, um dos seus bastardos. Esta preferência acarretou uma rivalidade entre os dois irmãos que, algumas vezes, deu lugar a confrontos armados. Os últimos anos do seu reinado (de Dinis I) foram marcados por conflitos internos entre os seus dois filhos: Afonso (1291-1357), depois Afonso IV, o herdeiro legítimo, e Afonso Sanches (1289-1329), seu filho natural. Em 1312, o Rei Dom Dinis doou a Póvoa de Varzim ao filho bastardo Afonso Sanches de Albuquerque, o que não contentou a Dom Afonso. A partir de 1315, o infante Dom Afonso (futuro Afonso IV de Portugal) incompatibiliza-se com o pai, por razões relacionadas com o valimento na Corte de seus meio-irmãos Afonso Sanches, João Afonso e Fernão Sanches. De 1319 a 1324, uma guerra civil ameaçava vir à tona em Portugal: revolta do infante Dom Afonso, que atribuía a seu pai, Dom Dinis, a intenção de o preterir na sucessão do trono por um irmão bastardo, Dom Afonso Sanches. Dom Dinis queria deserdar o filho legítimo para entregar o trono a um filho ilegítimo. Em função disso, houve graves desentendimentos na família real e iminência de uma guerra. O filho legítimo, revoltado com a atitude do pai, levantou um exército e pretendia apoderar-se do trono pela força. Nessa contenda, de um lado, estavam Dom Afonso e sua mãe, a Rainha Santa Isabel, além de outros grandes senhores, bispos do Porto e de Lisboa (Norte e Centro do reino). Enquanto de outro lado, opunha-se o sexagenário Rei Dom Dinis, com seus filhos bastardos Afonso Sanches, João Afonso e Fernão Sanches, os oficiais da Corte, alguns nobres, o bispo de Évora, o deão do Porto e, importantíssimos aliados, os mestres das ordens militares (Sul do reino).
Em 1320, Dom Dinis acusa seu filho Dom Afonso publicamente de revolta num manifesto. Dom Dinis consegue com o papa João XXII bula que condena todos aqueles que incitassem o infante à revolta. Em 1321, Dom Dinis apresenta um manifesto contra o filho (o infante Dom Afonso), ainda em Lisboa. Passado um ano, a Rainha Santa Isabel toma a iniciativa das conversações de paz. E no ano de 1323, por não ver atendidas algumas reivindicações, Dom Afonso retira-se para Santarém, onde reúne um exército com a finalidade de conquistar Lisboa.
Os seus homens defrontaram-se com os do rei na batalha de Albogas, perto de Loures. A Rainha Santa Isabel intervém novamente. Os dois exércitos quase chegam às vias de fato em Alvalade, perto de Lisboa; chega-se a novo armistício por intervenção conjunta de Dona Isabel e do Bispo da cidade, Dom Gonçalo Gonçalves de Pereira. Em 1324, levanta-se uma rebelião em Santarém contra Dom Dinis. O rei dirige-se de Lisboa até lá, onde seu filho continuava a morar, mas não foi recebido. Depois de nova batalha, é estabelecida a Paz de Santarém: o infante Dom Afonso obtém a segurança da sucessão ao trono, sendo destituído e afastado da Corte o bastardo e mordomo-mor Afonso Sanches.
Em 1325, morre Dom Dinis e Afonso IV torna-se Rei. Com a morte do rei, a Rainha viúva Santa Isabel entra no convento das franciscanas de Santa Clara, em Coimbra. O sucessor de Dom Dinis, Afonso IV, passa a acusar o bastardo Afonso Sanches (refugiado em Castela) de traidor, condenando-o a desterro perpétuo e confiscando-lhe os bens. Afonso Sanches, descontente com as atitudes do rei, invade Portugal.
Como primeira decisão, Afonso IV exilou Afonso Sanches para Castela, retirando-lhe todas as terras, títulos e feudos concedidos pelo pai de ambos. O exilado não se conformou e, do outro lado da fronteira, orquestrou uma série de manobras políticas e militares com o fim de se tornar ele próprio rei. Depois de várias tentativas fracassadas de invasão, os irmãos assinaram um tratado de paz, sob o patrocínio da Rainha Santa Isabel.
Para apaziguar esse conturbado período, caracterizado por instabilidades políticas há a versão de que a Rainha Santa Isabel teria abdicado a coroa em favor do Divino Espírito Santo. Por isso, deliberou que reinaria sobre Portugal a terceira pessoa da Santíssima Trindade. E para dar visibilidade pública à sua promessa:
"No dia de Pentecostes, toda a Corte, em solene procissão, tendo à frente o Imperador e a Imperatriz, dirigiram-se à Catedral, depositando no altar-mor a coroa, o cetro e o estandarte do Reino. (...). A partir de então, a Imperatriz repetia todos os anos, no dia de Pentecostes, a cerimônia de consagração do reino ao Divino Espírito Santo, em ação de graças pela felicidade e prosperidade de Portugal".
Dessa forma,
“A coroa surge, pois, logo no início da instituição deste culto como um elemento basilar e para vincar a sua importância, a própria Rainha oferece uma coroa à Igreja do Espírito Santo de Alenquer por ocasião da primeira celebração verificada, (...), com certa probabilidade em 1323”.
Segundo Nereu do Vale Pereira,
“A Rainha Santa Isabel queria tornar seu marido mais humilde no exercício das altas funções, então pediu licença para coroar o primeiro mendigo que encontrasse na capela à hora tércia, quando se oficializou ao Divino Paráclito. Isso deu origem à tradição de vestir um casal de adolescentes à réplica do Imperador e da Imperatriz”.
A instituição da Festa do Divino Espírito Santo em terras de Portugal é, por norma, atribuída à Rainha Santa Isabel. Mas como a devoção ao Espírito Santo já lhe era anterior, o que nos parece ser-lhe de crédito é o oferecimento da coroa real ao Espírito Santo e o início da tradição da participação da Corte nas solenidades litúrgicas no dia de Pentecostes. Essa solenidade teria sido
“inspirada por franciscanos de tendência espiritual. Os mesmos que, secundando o proselitismo de Santa Isabel, lograriam levá-la a patrocinar e, porventura, institucionalizar nos inícios do séc. XIV tais festejos com um aparato nunca antes visto, o que terá contribuído para radicar a tradição segundo a qual sob a sua égide e de D. Dinis se haviam originado”.
Dessa forma, a Rainha Isabel enriqueceu e deu novo estímulo às festividades do Espírito Santo em Portugal como prelúdio da era de paz e justiça, a Era do Espírito Santo. A Festa realizava-se no Dia de Pentecostes e consistia numa cerimônia solene, imbuída de ricos simbolismos religiosos e místicos, denominada de Império, na qual o Rei e a Rainha exteriorizavam a sua vontade de servir o seu povo no espírito da humildade e da caridade cristãs. Após a celebração da missa, realizava-se uma procissão culminando com a coroação do Imperador e de dois Reis. O Imperador e os reis eram crianças do povo, símbolos da inocência, a quem o rei e a rainha entregavam as insígnias do poder temporal: as suas coroas e o cetro real. O Imperador fazia-se acompanhar por três pajens e duas damas de honra. Estas últimas recebiam seus dotes dos reais anfitriões. Seguia-se uma tourada e a carne era distribuída aos pobres, e depois se realizava um banquete ou bodo, onde abundavam para todos o pão, o bolo, a carne e o vinho.
Com mais ou menos detalhes quanto à origem, motivação e ritual da primeira Festa do Divino Espírito Santo, o certo é que a devoção se espalhou por todo o reino português, com destaque para a Beira Baixa, para a região de Tomar, Estremadura e o Barlavento Algarvio, até se radicar nos Açores, arquipélago descoberto em 1427 e distante 1.500 km da costa portuguesa.
Em Portugal continental, a devoção se alastrou e alcançou seu ponto culminante na Era das Grandes Descobertas, ou seja, no século XV. De Portugal continental para as suas Colônias e Possessões, a devoção acompanhou o movimento colonizador, chegando ao Brasil e a Santa Catarina.
“As Festas do Divino Espírito Santo, que se espalham por Portugal inteiro até hoje, terminam com a coroação simbólica do imperador da Nova Era, na pessoa de um menino ou de uma pessoa muito pobre. A coroação é feita por cinco pessoas: um homem velho e um jovem; uma mulher velha e outra jovem e um menino que seria coroado rei no ano seguinte. Estes eram os símbolos da sociedade ideal, no paraíso terrestre que eles almejavam encontrar. Na Festa do Divino, o rei mandava libertar os presos em sinal de reconciliação e paz e ele, junto aos nobres da Corte, misturava-se ao povo ao qual fornecia comida e roupa de graça. (...). Com os tempos, as Festas do Divino foram sendo cerceadas, mas embarcadas nas caravelas, foram-se para a ilha dos Açores, de onde vieram para o Brasil”.
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E em Santo Amaro da Imperatriz não é diferente, com algumas adaptações regionais iniciadas com a promoção da primeira Festa do Divino Espírito Santo, em 29 de maio de 1854, ou inseridas posteriormente.
No primeiro semestre daquele ano, as obras da segunda igreja estavam concluídas e a imagem de Santo Amaro havia sido entronizada, representando a figura do padroeiro da localidade e fazendo com que o topônimo Arraial de Santa’Ana do Cubatão fosse substituído por Santo Amaro do Cubatão. Nesse ínterim, líderes políticos reivindicavam a elevação do então Arraial de Santo Amaro do Cubatão para a categoria de Freguesia e Distrito de Paz; um abaixo-assinado foi organizado e encaminhado ao Presidente da Província de Santa Catarina. Nesse contexto, a população, de maioria absoluta descendente de açorianos e de africanos, oriundos das Freguesias de Enseada de Brito, de São José, entre outras, planejou a instituição da Festa do Divino Espírito Santo.
Consultado o Pe. Macário César de Alexandria e Souza, pároco de São José, e que atendia o Arraial de Santo Amaro, consentiu com a instituição da Festa do Divino Espírito Santo, com a realização da respectiva novena, com a presença dos mordomos, do festeiro e da população em geral, na qual, segundo ele, poder-se-ia “cantar em ação de graças” ao Divino Espírito Santo. E assim foi feito.
A articulação da primeira festa deve-se, principalmente, aos moradores do povoado Braço de São João. Para viabilizar financeiramente a festa, foram escolhidos os primeiros mordomos: Joaquim Alexandre de Campos, Capitão João Marcos Pereira de Andrade, Capitão José Bonifácio da Silva, Capitão Francisco da Costa Porto, Capitão Mariano Correia Borges, Oficial de Registro Joaquim Manoel Pedro Tristão, Francisco Lourenço de Medeiros, José Antônio de Abreu, Matias Silveira de Matos, Martinho Ferreira da Cunha, Cipriano de Souza Cabral, David Fernando Lemos, Joaquim M. do Nascimento, Francisco Duarte da Silva, Claudino Pereira de Medeiros, Antero de Souza Pires, Camilo Silveira de Matos, Fernando Antônio de Medeiros, Jacinto Luiz de Andrade, José Antônio Botelho, Manoel Eufrásio de Medeiros, Matias Bach e Major Manoel Francisco Filisbino. Os mordomos geralmente eram chefes de família que auxiliavam o coordenador da festa, ou festeiro, no desempenho de suas obrigações.
Lá, no Braço de São João, foi criada a cantoria ou folia do Divino, cujos responsáveis já cantavam e trovavam o “Terno de Reis”. O primeiro folião foi Romalino João da Silva, que tocava batuque, Feliciano Pedro da Silva tocava violão, a rebeca ou o violino era tocado por Biel da Rosa Dias e o pandeiro, por José Antônio Teixeira. Participavam ainda as cantoras: Caetana Maria da Silva e Felicidade Rosa Dias. Também foi escolhido o porta-bandeira que visitava as residências, abençoando-as e solicitando esmolas para ajudar na realização da festa. Os membros da família, por sua vez, beijavam a bandeira invocando a proteção de Divino Espírito Santo, fazendo-lhe promessas.
A primeira novena foi realizada na residência de Serafim Ferreira da Silva, no Braço de São João. Ao término da novena, a qual era coordenada por João Espíndola de Novais, iniciava-se a cantoria do Divino, durante a qual todos beijavam a respectiva bandeira pedindo proteção ao Divino Espírito Santo. As novenas eram realizadas tanto nas casas dos mordomos como na de qualquer pessoa interessada. Para a novena, na residência do anfitrião era preparado um oratório à Santíssima Trindade, diante da qual os devotos participavam de cânticos, ladainhas, salve-rainhas e outras orações; depois se iniciava a folia do Divino. Procedia-se, ainda nos momentos finais da novena, a arrematação das massas entre os presentes. Para a festa daquele ano de 1854, um senhor mordomo foi aclamado como festeiro.
Depois de findas as novenas, foi realizada a primeira Festa do Divino Espírito Santo. Para a qual, as bebidas eram preparadas pelos homens, na hora, numa cozinha improvisada. E as senhoras preparavam a alimentação. Promessas ou prendas da bandeira do Divino eram trazidas pelos procuradores com antecedência para a Igreja Matriz. As massas, fruto de promessas, foram levadas para as dependências da Igreja Matriz, no dia anterior à realização da festa, e colocadas sobre uma grande mesa, ao lado direito do Altar-Mor, para serem abençoadas pela Santíssima Trindade. Os fogos de artifício vinham de Porto Belo-SC, de carroça até o Arraial de Santo Amaro do Cubatão, para ornamentar e embelezar a Festa do Divino.
Sobre o ritual da festa, há informações de que, no sábado, dia 28 de maio de 1854, o povo foi até a residência do primeiro festeiro e de lá o acompanhou, às 17 horas, até a Igreja Matriz, juntamente com as autoridades do Arraial de Santo Amaro e o Pároco Pe. Macário. Depois, rezaram a novena e, após, a folia do Divino. Ao término desta, mais queima de fogos de artifícios e festejos populares.
No domingo, dia 29 de maio de 1854, às 08 horas, a grande massa de povo chegava ao pátio da Igreja Matriz; o Pe. Macário César de Alexandria e Souza, paramentado, acompanhou o povo que se dirigia até a residência do festeiro; de lá, retornaram para a igreja onde, às 10 horas, participaram da Missa.
Após a Missa, continuavam os festejos, com fogos e músicas; sendo que ao meio-dia era oferecido um banquete para os pobres. Os festejos continuaram por toda a tarde. Às 19 horas, houve novena com o festeiro e a sua comitiva. Na segunda-feira, dia 30 de maio, às 8 horas, os paroquianos acompanharam o Pároco até a residência do festeiro, com a comitiva e suas autoridades, e de lá deslocaram-se para a Igreja Matriz, onde se deu a celebração da missa, às 10 horas. Após as celebrações litúrgicas, os festejos populares continuavam, quando também eram distribuídas as massas para os pobres.
De 1854 até 1875, há poucas notícias sobre a Festa do Divino Espírito Santo em Santo Amaro. Entretanto, conseguimos localizar um texto relativo à Festa do Divino realizada em 1868. Nele, afirmava-se que Manoel Antônio Soares do Nascimento era imperador e que ele “muito se esmerou para fazer uma boa festa, para o que assaz concorreu o digno e inteligente vigário”. Segundo a mesma fonte:
“O Imperador deu um esplêndido jantar a todos quantos assistiam a mesma festa; a casa em que se achava a coroa estava bem ornada, tendo a efígie de Sua Majestade o Imperador e sua augusta família, assim como a efígie de Sua Majestade Fidelíssima D. Luiz I, Rei de Portugal; enfim, no Domingo à noite uma música composta por alemães da colônia, acompanhada de muitos cidadãos do lugar, dirigiram-se a várias casas dando vivas a Sua Majestade Imperial e sua augusta família, aos bravos Defensores da Pátria, à Marinha Brasileira e a seus dignos chefes, assim como ao General em chefe Caxias; em todos os ânimos se observava o maior entusiasmo”.
Em 1875, a Festa do Divino sofreu significativas adaptações adequando seu conteúdo à secular tradição portuguesa. E, com esse objetivo, em abril de 1875, a pedido de Joaquim Alexandre de Campos, “Bernardo de Souza Franco – Sr. Conselheiro Inspetor da Corte Imperial – Petrópolis, Rio de Janeiro”, teria confirmado presença na Festa do Divino Espírito Santo de 1875. Em função da visita ou mesmo das determinações do supracitado Conselheiro Inspetor da Corte Imperial, a comunidade, através de suas lideranças, re-formatou as festividades: decidiu comprar uma nova coroa, salva e cetro. Foi nomeado um festeiro e criada a Irmandade do Divino Espírito Santo. O Império do Divino também teve sua gênese nesse período, sendo construído posteriormente. Essas inovações significaram um novo tempo, resultando numa nova fase para a Festa do Divino Espírito Santo, em Santo Amaro da Imperatriz: a fase da tradição, da organização.
Como citamos, em 1875, foi fundada a Irmandade do Divino Espírito Santo, a 17 de maio. Para viabilizar a fundação da aludida Irmandade, nas dependências da Igreja Matriz de Santo Amaro, estiveram:
“reunidos os signatários do Compromisso da Irmandade do Divino Espírito Santo, da mesma freguesia para o fim de elegerem a (diretoria) da mesma Irmandade e achando-se presentes o Irmão Coronel Gaspar Xavier Neves, Antônio Ferreira de Macedo, Laurentino Ferreira de Macedo, Nicolau Antônio Eller, Estêvão Antônio Pretz, Carlos Reinold Müller e faltando, por se acharem ausentes, o Capitão José Jorge de Betancourte e Souza, Ernesto Augusto de Souza Costa, Manoel Francisco Tavares, Januário Prota Fabrício, Cândido Augusto de Souza Costa e Vicente Ferreira dos Santos”.
Na seqüência, na mesma reunião, o Coronel Gaspar Xavier Neves, fez “a leitura em voz alta e inteligível de todos os artigos do mesmo Compromisso”, declarando fundada a Irmandade do Divino Espírito Santo em Santo Amaro.
Dois meses depois, em 4 de julho de 1875, a direção da Irmandade do Divino Espírito Santo voltou a se reunir com a finalidade de:
“deliberarem sobre o pagamento das jóias dos empregados, Irmãos e mesários e mais do Divino Espírito Santo, como dispõem os artigos do Compromisso da referida Irmandade. E a mesa deliberou que qualquer devoto ou Irmão que queira levar a Coroa do Divino Espírito Santo para sua casa a fim de pagar sua promessa pagará a jóia de dois mil réis e juntamente o rendimento que render e entregará ao Procurador”.
Do acima exposto deduzimos que em 1875, logo após a fundação da Irmandade, a mesma já possuía a Coroa do Divino Espírito Santo. Ainda no mesmo ano, “Antônio Cândido de Abreu que, escolhido para ser o imperador do Divino em 1876, decidiu adquirir coroa e cetro novos”, além da salva. E o fez na cidade de Salvador, na Bahia, em 1874.
No ano seguinte, em 1876, aos três de junho, esteve reunida a Irmandade para procederem à eleição dos Irmãos mesários e mais empregados da mesma. Participaram dessa reunião: Manoel Gonçalves de Abreu, Manoel Leal da Cunha, João Eleotério de Farias, Joaquim Teixeira de Quadros, Jacintho Ferreira de Macedo, Amâncio Pereira Maciel, Manoel Pereira Maciel entre outros e a eles coube proceder à eleição da nova diretoria da Irmandade do Divino Espírito Santo que ficou assim constituída: Juiz, Manoel Antônio Soares do Nascimento, com cinco votos; para Escrivão, Ricardo de Aguiar Martins, com sete votos; para procurador, Manoel Gonçalves de Abreu, com sete votos; para tesoureiro, Manoel Pereira Maciel, com sete votos. E assim da mesma forma passou-se a votação dos Irmãos mesários, com o seguinte resultado: Adriano Ferreira dos Anjos, sete votos; Crispim Lourenço de Medeiros, sete votos; João Claudino de Ávila Vieira, sete votos; Francisco Bernardo Machado da Silva, sete votos; José Antônio Duarte, sete votos; Bernardino José da Silva, sete votos; Amâncio Pereira Maciel, sete votos; Jacinto Ferreira de Macedo, sete votos; Joaquim Teixeira de Quadros, sete votos; Francisco Antônio da Cunha, sete votos; Joaquim Claudino Pereira de Ávila, sete votos; Manoel Leal da Cunha, sete votos.
Em 11 de junho de 1876, foi realizada nova reunião da Irmandade, ocasião em que foram relatados os seguintes bens a ela pertencendo:
“Um arquibanco, uma mesa velha com uma gaveta, uma Coroa do Divino Espírito Santo de prata, e um cetro de prata, uma salva de metal, uma custódia de madeira, uma banqueta com seis castiçais e uma imagem de Santo Cristo, uma bandeira de damasco encarnada em bom estado, uma lista de tafetá (sic) encarnado, um tambor em mau estado, uma lata com ferrugem, um par de vasos com porcelana pequenos, três toalhas em mau estado, uma caixa de damasco de algodão em mau estado, quatro cortinas de ganga encarnada em mau estado, um par de castiçais de chumbo velhos, um resto de galões de óleos, e doze e meia várias de galão (sic) e a quantia de trinta e três mil e setecentos em dinheiro”.
A partir de 1876-1877, as atas da Irmandade referem-se a problemas administrativos e inobservância de artigos do Compromisso. Em junho de 1877, a reunião da Irmandade foi realizada na casa de Manoel Gonçalves de Abreu “por não haver ainda nesta Freguesia Império, digo, casa do Império”. No ano seguinte, a reunião de Irmandade, realizada em 24 de junho, aconteceu na “Casa do Império desta Irmandade”. No mês de agosto de 1879, o livro de matrícula da Irmandade do Divino Espírito Santo apresentava 56 membros.
Data-se a 12 de maio de 1883, a última ata da Irmandade do Divino Espírito Santo a que tivemos acesso. Em 05 de novembro de 1891, o Pe. Arcângelo Ganarini escreve ao bispo do Rio de Janeiro e, entre outros aspectos, afirma que “não existe Irmandade” na Paróquia de Santo Amaro. E continua: “Uma que existia, perdeu por felicidade seu Compromisso e não funciona mais”. Como causa do término da Irmandade cita que “um finório tinha feito dela um meio de lucro”. E termina: “Algumas opas que havia foram recolhidas à Igreja e servem, agora, para os que acompanham o S. Viático aos enfermos”.
Apesar da documentação afirmar que existia a “Casa do Império”, em julho de 1895, Dom José de Camargo Barros afirma que “com donativos do povo se está edificando um theatro do Espírito Santo”. O mesmo bispo, na mesma oportunidade, diz ter sido recepcionado, entre outros fiéis, pelos “irmãos do Divino”; o que significa que, apesar do Pe. Ganarini afirmar em 1891 que a Irmandade havia sido extinta, ainda existiam os “Irmãos do Divino”. O Livro de Crônicas, em 1941, também afirma ter existido a Irmandade do Divino Espírito Santo e que a mesma teria sido fundada em 1874 e extinta ainda no período de atuação do Pe. Ganarini: 1883 a 1900.
Em junho de 1895, o Bispo de Curitiba Dom José de Camargo de Barros, a cuja Diocese a Paróquia de Santo Amaro pertencia, realizou visita pastoral e deixou registrada uma descrição histórica sobre a igreja e nela, a existência de um altar consagrado ao Espírito Santo:
“o altar lateral da parte da Epístola é consagrado ao Espírito Santo, que está com um ostensório de madeira, havendo também neste altar a Coroa e o Cetro do Divino, de prata”[70].
Num inventário realizado em maio de 1900, o Pe. Archangelo Ganarini confirma a existência do império do Divino Espírito Santo e afirma que o mesmo foi “edificado no terreno da matriz a expensas dos devotos, o qual, por não existir irmandade, de direito, pertence à Igreja Matriz”. Dom Duarte Leopoldo e Silva, sucessor de Dom José de Camargo Barros, em 1905, quando de visita pastoral a Santo Amaro, confirma a existência do “theatro do Espírito Santo”. O Pe. Frei Burchardo Sasse, em 1904, tentando resumir informações históricas sobre a paróquia, cita como “imperador do Espírito Santo de então, José Bento, que não podendo fazer a Festa do Espírito Santo”, doou para a Igreja Matriz a lâmpada para o Santíssimo Sacramento. Entretanto, o Pe. Frei Burchardo não cita o ano em que José Bento seria o imperador.
No decorrer do tempo, a realização da Festa do Divino Espírito Santo passou a ser objeto de preocupação dos bispos de Curitiba e, a partir de 1908, do bispado de Florianópolis. A centralização da festa nas mãos dos leigos e a falta de controle por parte do clero sobre o seu ritual geraram uma situação conflituosa entre a Cúria Diocesana e os populares. E em Santo Amaro não foi diferente. A realização de novenas em casas particulares, o peditório com a bandeira, o destino dos recursos financeiros arrecadados e o próprio ritual da festa, concebido como excessivamente profano em detrimento de seu aspecto religioso, geraram severas medidas administrativas e coercitivas da parte hierárquica da Igreja, com o objetivo de disciplinar a festa o que, muitas vezes, desagradou à população.
Dessa forma, em 04 de janeiro de 1906, Dom Duarte Leopoldo e Silva proibiu o uso da bandeira do Espírito Santo para recolher esmolas. Vetou também as folias e determinou que as solenidades fossem revestidas de um caráter eminentemente religioso, excluídas as profanidades inadequadas. Os festeiros deveriam se submeter às determinações diocesanas, caso contrário, o clero negar-se-ia a participar das solenidades alusivas ao Divino Espírito Santo. Coube ao Pe. Frei Humilis Thiele, então pároco de Santo Amaro, comunicar ao povo a decisão do Bispo Dom Duarte. Segundo relatório do Pe. Frei Jerônimo Goldkuhle, enviado ao bispo,
“a impressão causada por esta comunicação era enorme. No princípio declararam ser esta determinação uma invenção dos padres. Tendo-se depois verificado diversas deputações do povo, que se tratava de um decreto do Bispo, imputou-se aos padres terem insinuado e solicitado tal rigorosa ordem”.
Mas, uma parte da população não consentindo com as determinações eclesiásticas resolveu desafiá-las. O Pe. Frei Jerônimo descreve os fatos nestes termos:
“A novena do Espírito Santo começou no dia fixado na folhinha eclesiástica depois de ter eu novamente explicado a circular de V. Exa. ao povo. A bandeira, que no primeiro dia da novena podia ser conduzida processionalmente da casa do festeiro para a igreja, não foi buscada neste dia; as novenas continuaram na igreja sem perturbação alguma até a sexta-feira antes da Festa do Divino Espírito Santo. Com este dia, porém, começaram as desordens. Existindo até agora o costume de rezar na sexta-feira e no sábado uma novena particular na casa do festeiro, depois de acabada a novena na igreja, o povo queria tirar, com força, a bandeira da igreja, e levar para a casa do festeiro, juntamente com a coroa e o cetro do Espírito Santo. Isto não se realizou, porém, por causa da prudência de muitos e sobretudo do próprio festeiro, que como bom católico se submeteu sem reservas às ordens de V. Exa. E não participou de maneira alguma nas desordens dos barulhentos. Não podendo conseguir estes o seu tentame, ainda mais começaram a gritar contra os padres e o bispo, e até se atreveram de chamar ao bispo de maluco como me contaram. Ainda pior era o que se deu na novena de sábado. Nesta noite a novena foi bruscamente interrompida, sendo levados por alguns desordeiros os músicos, que estavam esperando fora da igreja a conclusão da novena, a tocarem marcha na porta de igreja. Avisados logo por diversos padres, de cessar com a música, não obstante continuaram a tocar, até o Pe. Xisto que saiu para impor-lhes silêncio foi ameaçado com faca. O barulho que reinava continuou no domingo durante a missa de festa, de maneira que era impossível pregar o sermão. Depois da missa houve lugar, em minha presença, a eleição do novo Imperador. O primeiro eleito recusou aceitar o cargo e o presidente da eleição já declarou que a festa se acabou para sempre quando, pela tarde, voltou com mais outros para nossa casa propondo, a rogo do povo, um outro para ser festeiro. Não foi sem hesitar que aceitei pondo, contudo, as condições seguintes: 1ª) – que o festeiro se submetesse completamente às ordens de V. Exa.; 2ª) – que a música, no ano que vem, não tocasse nas imediações da igreja, sendo causado, principalmente pela música o barulho deste ano; 3ª) – que o festeiro providenciasse polícia para a manutenção da ordem. Foram aceitas as minhas cláusulas por parte do festeiro. Acrescentei como quarta condição que, para o ano vindouro, todos os bons católicos tomassem interesse para conservação da boa ordem, caso contrário, da minha parte, toda a solenidade se limitaria a uma simples missa rezada, para não expor as coisas de Deus à profanação de desordeiros insubordinados. Já comuniquei isto uma vez do púlpito a todo o povo e não deixarei de fazer mais vezes o mesmo no ano vindouro antes da festa”.
Em 1910, houve a realização do Primeiro Sínodo Diocesano de Florianópolis e, nele, foi proibida a prática de folias e de novenas em casas particulares com a presença da bandeira do Divino, além de revogada a determinação de Dom Duarte, datada de janeiro de 1906, referente a peditórios com a bandeira do Divino Espírito Santo desde que observadas as seguintes normas:
“a) – Para cada festa o respectivo festeiro ou provedor da Irmandade requererá uma provisão de licença à Autoridade Diocesana no caso que deseje tirar donativos por meio de peditório. b) – O respectivo requerimento deverá trazer uma informação do Vigário da Paróquia. c) – O Reverendo Vigário tem o direito e o dever de escolher com o promotor da festa e de aprovar as pessoas que saírem em peditório com a bandeira, providenciando para que não haja abuso ou profanação alguma. Ficam proibidas as chamadas folias, sendo permitido o rufo de tambores nas freguesias rurais, e proibidas as devoções feitas em casas particulares com a presença das bandeiras. d) – O programa e o orçamento da festa serão elaborados de acordo com o Reverendo Vigário, que fiscalizará o rendimento parcial e total, tanto do peditório como das promessas, salvas e leilões. e) – Desse rendimento total, com exceção das anuidades dos irmãos e oferta dos juízes e provedores, para integralizarem o pagamento das despesas da festa, entregar-se-á ao Vigário a porcentagem de vinte por cento para o Seminário Diocesano, salvos sempre os direitos paroquiais. f) – Esta disposição compreende todos os peditórios de festas com acompanhamento de bandeiras”.
Em 20 de março de 1911, o pároco Pe. Frei Meinrado Pierre, de acordo com as determinações do Sínodo Diocesano de 1910, pede licença ao bispo para “esmolar para a Festa do Divino Espírito Santo com a bandeira conforme as prescrições diocesanas ao festeiro do ano mil novecentos e treze, Sr. Luiz Paulino da Silveira”. Em 24 de fevereiro de 1914, o referido pároco pede licença ao Bispo de Florianópolis para “esmolar com a bandeira do Divino Espírito Santo para a Festa de Pentecostes”, no que o bispo consente. No ano seguinte, 1915, o pároco volta a solicitar ao bispo “licença de sair a bandeira em peditório de esmolas”, no que o bispo novamente consente, mas faz uma ressalva: “com a bandeira, mas sem folia”. Um ano mais tarde, 1916, por ocasião da Festa do Divino Espírito Santo, o pároco Pe. Frei Meinrado Pierre volta a escrever para o bispo nestes termos:
“Cumprimentando respeitosamente V. Ex. Revma., venho humildemente pedir de nomear o Sr. João Medeiros dos Santos como festeiro da Festa do Espírito Santo e logo nomear o Conselho de Fábrica como comissão de promover a festa e ao mesmo tempo autorizar o tesoureiro fabriqueiro da Igreja Matriz de Santo Amaro do Cubatão para receber toda a arrecadação da festa, sejam esmolas, promessas, leilão etc”.
E sugere, na mesma correspondência, ao bispo novas proibições relacionadas aos festejos do Divino Espírito Santo:
“Era talvez bom se constasse da mesma provisão que não é lícito o uso da folia nem na festa, nem na coroação do festeiro, nem no acompanhamento do festeiro para a igreja ou para casa, e que seja destinado o teatro do Divino Espírito Santo como lugar da coroação do festeiro. Seja-me permitido de chamar a atenção de V. Revma. que na circular Nº 4 não se fala das novenas em casas particulares com coroa e bandeira seja estendida a proibição de sair tanto a bandeira como a coroa para este fim”.
E parece-nos que a Mitra Diocesana acatou as sugestões do Pe. Frei Meinrado, o que fez com que parte da população se revoltasse contra as proibições. Nem tudo foi pacífico, de acordo com o Livro de Crônicas:
“uns espíritos insubordinados, (...), fizeram oposição contra a determinação do Exmo. Sr. Bispo proibindo a saída da bandeira do Divino para angariar esmolas. Pretenderam tirar a bandeira à força. O Revdo. Vigário pediu ao Exmo. Sr. Governador do Estado, por intermédio do Exmo. Sr. Bispo, a intervenção da Polícia. O dia determinado para tirar a bandeira era o dia 30 de abril. De noite, sem o povo o saber, chegaram seis praças da capital, comandados por um sargento e o digno Delegado de Polícia de Palhoça; e quando no outro dia os revoltosos os perceberam, não tiveram mais coragem nem de aparecer na vila e menos ainda falaram contra o Vigário”.
E, na tentativa de disciplinar a Festa do Divino Espírito Santo, o Pe. Frei Meinrado Pierre faz novas sugestões ao bispo do qual espera consentimento. Entre essas sugestões constavam as seguintes:
“1. – Tendo abolido o peditório pela bandeira, será talvez lícito de angariar esmolas por pessoas vestidas de opas. Note Bem: Não por todas foi bem aceita a forma de angariar esmolas com o cetro e mesmo pessoas sérias e bem religiosas me disseram que não achavam bom de sair o cetro; pois era a mesma coisa, como a bandeira e podiam se dar os mesmos abusos mais tarde.
2. – O rendimento da arrecadação de esmolas, do leilão, promessas somente pertence à igreja e o imperador não terá direito sobre este dinheiro. A Igreja então faz a Festa e o Festeiro tem só o dever de deixar se coroar. Note Bem: Querendo o festeiro fazer a sua festa à sua custa. Todo o rendimento será entregue ao tesoureiro do Conselho.
3. – Um mês antes da festa haverá reunião do Conselho à qual também é chamado o festeiro para combinar sobre a festa.
4. – A respeito do estilo da festa, o Conselho da Igreja houve por bem o seguinte: Na sexta-feira antes da festa, depois da novena, o festeiro é acompanhado pela bandeira até a casa de sua parada na freguesia, não havendo novena na casa do festeiro. Note Bem: Julga ser conveniente ao menos aqui em Santo Amaro acabar o leilão com uma novena no império para evitar bailes etc. Como me consta só nestes dois lugares há o costume de rezar novenas nas casas dos imperadores. No sábado de noite virá o festeiro acompanhado pela bandeira para a igreja, depois da novena irá com o mesmo acompanhamento até o Teatro do Divino Espírito Santo onde terá lugar o leilão. No fim do leilão o festeiro será acompanhado com a bandeira até a casa dele na freguesia ou não – não sei o que faz melhor. No domingo às 09 horas o festeiro deve estar no Teatro do Divino Espírito Santo onde ele será coroado, cantando-se o verso do Divino Espírito Santo. Às 10 horas começa a Missa Solene. Depois da Missa haverá no teatro o sorteio do novo imperador e pagamento de promessas. De noite haverá novena e leilão. Na segunda-feira, coroação do novo imperador. Ficando a bandeira, coroa e cetro na igreja. Note Bem: Talvez seja conveniente de aprovar um estilo de festa em geral ou cada um Vigário requerer a aprovação do estilo ao próprio seguindo os costumes do lugar, do Revmo. Ordinário, para evitar que os leigos e certas pessoas se ingerir na direção da festa pelo seu gosto, dificultando assim a ação do Vigário”.
Mediante a documentação histórica a que tivemos acesso, percebe-se que a proibição do uso da bandeira perdurou até 1918 quando, a pedido do Pe. Frei Policarpo, Dom Joaquim Domingues de Oliveira concedeu licença “desde que não haja abuso de espécie alguma antes mui moderação e simplicidade”. O Segundo Sínodo Diocesano de Florianópolis, realizado em 1919, mantém-se irredutível com relação à realização de folias mantendo-as “absolutamente proibidas”, mas libera os peditórios com a bandeira, determinando que sejam “feitos por pessoas de reconhecida religião e probidade, e aprovadas pela autoridade diocesana”. E para manter as prescrições diocesanas, “corrigir infrações e manter o respeito à lei, invocar-se-á, se preciso for, o auxílio das autoridades civis”.
Em 1921, “foi celebrada a Festa do Divino Espírito Santo com toda a solenidade. O festeiro obedeceu em tudo às determinações do Revmo. Sr. Bispo. Não houve folia. O novo festeiro prometeu também seguir o mesmo caminho”. Em 1926, o vigário Pe. Frei Clemente Tambosi pede autorização ao bispo “para poder sair a bandeira do Espírito Santo angariando esmolas”, ao que o bispo concede. Naquele ano, 1926, “a Festa do Divino Espírito Santo correu em boa ordem. Não houve nenhuma das acostumadas encrencas por parte do festeiro contra o Vigário, que exige às vezes usos antigos que foram proibidos pelo Sr. Bispo”.
Em 1927, a Festa do Divino foi “celebrada com a solenidade de costume”. Passado um ano, em 1928, conforme cita o Livro do Tombo da Paróquia, tem-se “a maior de todas as festas em Santo Amaro”, a qual foi “celebrada com toda a pompa e solenidade”. O festeiro
“em tudo se conformou com as determinações do Sr. Arcebispo, com exceção das duas novenas de sábado e domingo à noite que, depois de serem rezadas na igreja, rezaram-se também numa casa da Freguesia. Este costume inveterado, contra as determinações da Cúria, ao qual o povo está aferrado, tão ligeiro não poderá ser abolido”.
Em 1931, a festa “foi celebrada com toda a solenidade, concorrência e boa ordem”. Em 1932, além da pompa, a festa foi celebrada “com todas as cerimônias um pouco esquisitas”.
Em 1938, a Cúria Metropolitana envia outra carta circular normatizando os festejos em honra ao Divino Espírito Santo, “proibindo terminantemente o abuso das folias por ocasião em que passa o peditório com a Bandeira”. A Festa do Divino realizada em 1938 obedeceu ao seguinte programa:
“Sábado, dia 04 junho: O Imperador, acolitado pela Corte dos pajens e damas, recebido pelo Vigário da Paróquia, fará sua entrada solene na Matriz. Seguirá a novena solene com sermão. Finda a novena, o Imperador será acompanhado pelo Vigário, pela Corte e povo ao ‘Império’, artisticamente ornado, onde receberá as homenagens tradicionais. Lindas séries de fogos de artifícios darão a estas cerimônias um brilho excepcional. Domingo, dia 05 de junho: Às 9h30min formar-se-á o préstito solene na residência do Imperador que, acompanhado pelo povo, se dirigirá à Matriz. Às 10 horas, Missa Solene. O coro misto paroquial embelezará as funções litúrgicas com lindas composições musicais. Terminada a missa, o Imperador receberá as homenagens de praxe, assistindo ao leilão das ‘massas’ oferecidas. Nessa ocasião será eleito o novo Imperador que há de organizar os festejos do seguinte. Às 7 horas da noite será a última novena, à qual assistirá novamente o Imperador com sua Corte Real. Segunda-Feira, dia 06 de junho: Às 09 horas o Imperador com sua Corte, reunidos na Matriz, assistirá à Santa Missa. Após as funções religiosas, serão entregues as insígnias reais ao novo Imperador. Ao sair do recinto sagrado, o novo Imperador receberá as aclamações do povo. Sábado à noite e domingo durante o dia, organizar-se-ão uma quermesse com leilão, barraquinhas de bebidas e de café; jogos e bazar no adro da Igreja, em benefício da Matriz”.
Pela programação acima, é possível perceber certa estrutura no ritual da festa que, aos poucos, se consolidava. Em 1941, o Livro de Crônicas diz que
“no decorrer dos anos acalmou-se, porém, o espírito da oposição tanto mais que, o atual Arcebispo Dom Joaquim Domingues de Oliveira, concedeu a saída da bandeira e do cetro do Divino para o sítio e o Pe. Vigário Clemente Tambosi – OFM regulava sempre mais à vontade do povo as cerimônias velhas com a coroação e recepção do ‘Imperador’ e seu acompanhamento da ‘Imperatriz’, Damas da Corte, vestidos no estilo velho e novo”.
Durante a missa, reservou-se um lugar especial, no interior da igreja, para o “Imperador, a Imperatriz e Damas da Corte”. Já após a missa, o Pe. Vigário acompanhou a Corte Imperial para a casa da escola, onde foi realizada a eleição do novo Imperador para o ano seguinte. Sobre a investidura do novo festeiro diz o Livro de Crônicas: “antes da novena do mesmo dia (dia da festa) foi despido pelo Pe. Vigário o Imperador velho e vestido o Imperador novo”. E faz uma ressalva: “com a Imperatriz não se faz esta cerimônia”. E diz mais: “seria bom combinar, se for conveniente deste modo e com tantas cerimônias continuar as Festas do ‘Divino’ no futuro”. E conclui:
“as cerimônias e mais exigências inconvenientes dos primeiros anos da Irmandade do Divino Espírito Santo, fundada em 1874, conforme as quais o folião, isto é, bumbo, bandeira e música avançavam até o altar, felizmente estão supressas”.
Em 1943, a festa transcorreu “com o maior respeito e ordem”. Além disso, o festeiro “entregou generosamente à Matriz todo dinheiro da bandeira e dos mordomos, fato inédito até agora nos anais da paróquia”. Sobre o assunto o Livro de Crônicas diz o seguinte:
“depois de se realizar a festa, o festeiro Sr. Oscar Schweitzer, filho de Santo Amaro e morador de Lages, doou generosamente à Matriz toda a importância das coletas da bandeira e também os donativos dos mordomos, fato inédito até agora nos anais da paróquia”.
Mas a entrega à Igreja Matriz de todo o dinheiro arrecadado pela bandeira estava longe de ser consenso entre a população. Em função disso, o Pe. Frei Fidêncio, na intenção de disciplinar os respectivos procedimentos, busca na Cúria Metropolitana normas claras e objetivas. Dessa forma, escreve ao bispo em 02 de março de 1949, cuja correspondência é respondida três dias depois pelo Pró-Vigário Geral, Pe. Frederico Hobold, nestes termos:
“Em nome de S. Excia. Rvma., apraz-me acusar em mão o requerimento de V. Rvma. de 02 do corrente datado, informando haver encontrado nesta Paróquia a seguinte praxe: Cada ano, duas Bandeiras do Divino percorrem a Paróquia toda em determinado tempo para angariar esmolas, às quais se deduz a porcentagem costumeira para a Cúria, sendo o resto entregue ao Festeiro do respectivo ano para as suas despesas, sem que, nada receba a Matriz; e pergunta V. Rvma. se tal praxe está ou não de acordo com as Leis Arquidiocesanas. Antes de tudo, a praxe da Bandeira, em si, é louvável mas, necessita, como sabe, a autorização prévia da Cúria. Quanto às ofertas angariadas, deduzida a porcentagem da Cúria, o restante será entregue, mediante prestação de contas, ao Vigário da Paróquia, como Presidente ou Chefe nato da Fábrica, o qual administrará ou aplicará de acordo com as Leis Diocesanas. O Festeiro, segundo a verdadeira praxe nada recebe e nada aplica. Pelo contrário, desembolsa, se não que faz a festa toda a expensas próprias. E por ser esta a praxe verdadeira, também o será ou deverá ser da Paróquia de Santo Amaro da Imperatriz”.
E, continuando o processo de disciplinar a Festa, faltaria ainda, segundo o Pe. Frei Fidêncio Feldmann, normatizar o excesso de novenas na véspera da Festa do Divino. Costumava-se promover novenas em diversas residências, incluindo a do festeiro. Com esse objetivo, escreve à Cúria solicitando providências. Em 19 de abril de 1949, o Pró-Vigário Geral Frederico Hobold, responde determinando que se faça uma só novena e essa na Igreja Matriz. Para contemplar os descontentes com as suas determinações, consente que, caso houvesse algum ritual tradicional realizado durante as novenas nas residências, o mesmo poderia ser realizado na Igreja Matriz. Veja o teor da resposta do Pró-Vigário Geral:
“Em verdade, nada mais louvável do que conservar às festividades e, no caso, à do Divino Espírito Santo o cunho religioso que lhes é devido. Nem é para outro fim que são instituídas as festividades religiosas. Aí, para a referida Festa do Divino, costuma haver, à noite, a Novena, na Matriz. Nesse caso, parece dispensável outra novena aqui ou acolá, seja mesmo na residência do festeiro, ainda porque se o que a motivasse fosse algum número tradicional e honesto, este poderia ser incluído entre os que compõem a Novena na Matriz, – e, assim, com essa razoável concessão, tudo se regularia e todos ficariam satisfeitos. Em tese, pois, uma só novena, e esta, evidentemente, na Matriz”.
Em 1951, foi realizado o Quarto Sínodo Diocesano de Florianópolis, no qual mantiveram-se as deliberações do Segundo Sínodo realizado em 1919 com relação ao peditório com a bandeira, à proibição das folias e à “solicitação de quem de direito”, para prevenir possíveis abusos. Ainda de acordo com o Quarto Sínodo, os párocos deveriam:
“reservar às festividades religiosas o seu próprio caráter, eliminando os abusos, como sejam folias, danças, etc., e impedir o desvio das esmolas, recolhidas a título de festas, para profanidades ou qualquer emprego alheio ao seu próprio destino”.
Disciplinado o destino das esmolas angariadas com a Bandeira, surgiram outras preocupações, relacionadas à possibilidade do uso de tambores e canções durante o percurso realizado pelas Bandeiras. Mas, por considerar a disciplina havida em anos anteriores e o que determina o Artigo 280 do Primeiro Sínodo, a Cúria autorizou, em 1953, “o rufo dos tambores e mesmo alguma canção honesta”. Autorizou também a presença da Bandeira em casas particulares, sob as seguintes condições:
“a) – que se trate de pessoas de absoluta confiança, no lado moral e no que toca a dinheiros; b) – que o Vigário ou quem o represente fiscalize o rendimento não só do peditório, como das promessas, salvas, etc.; c) – que sejam satisfeitos os emolumentos da Cúria, isto é, a percentagem devida ao Seminário, e ainda o correspondente à Provisão da Cúria, etc. Enfim, evitados os abusos, talvez se possa transigir com certos costumes antigos do povo, sobretudo na zona rural. Isto, bem entendido, por esta vez, pois que sempre se requererá provisão da Cúria, por escrito, digo, autorização por aquela forma”.
Além dessas preocupações, em 1953, surgiram outras também de ordem moral denominadas de “grandes folias e imoralidades durante as noites da festa”. Os padres assim escrevem suas preocupações no Livro do Tombo:
“a Festa do Divino com suas demonstrações tradicionais nos trouxe bom tempo e muitíssima gente, (...), deixou-nos, porém, a festa com a grande preocupação de como terminar ou diminuir as grandes folias e imoralidades durante as noites da festa”.
Mas as preocupações em disciplinar os rituais referentes à Festa do Divino continuavam. Em 1954, o Pe. Frei Modesto Terlau, preocupado com as “folias e foliões” durante a Festa, escreve ao Vigário Geral da Arquidiocese de Florianópolis, solicitando instruções de como proceder. Em resposta, a Cúria informa que deve ser observado o que determina a respeito o Primeiro Sínodo da Diocese de Florianópolis, datado de 1910. Eis o teor da citada resposta:
“Tenho em mão a sua (correspondência) de 09 do corrente datada, tratando das folias e foliões por ocasião da Festa do Divino Espírito Santo, e pedindo providências com que evitar abusos e discórdias que fazem pouca honra ao culto católico. Em verdade, já é tempo para que esse uso ou abuso fique definitivamente disciplinado. Honrar o Espírito Santo é por certo um propósito inegavelmente louvável. Mas há modo e modos. E não há dúvida que o melhor modo, modo mais aconselhável, o modo exclusivo, é o que já tem merecido a atenção de todos os governos diocesanos e que se encontra claramente exarado no 1º Sínodo. Vou transcrevê-lo para que V. Revma. o possa ler aos que desejarem auxiliá-lo naquela grande devoção mas também excluir e mesmo denunciar à autoridade policial todos quantos não desejam submeter-se aos regulamentos da igreja e aproveitam as festas para abusos ou conveniências pessoais. – O nº 280 do 1º Sínodo, já referido, diz textualmente: ‘c) – O Revdo. Vigário tem o direito e o dever de escolher com o promotor da festa e de aprovar as pessoas que saírem em peditório com a bandeira, providenciando para que não haja abuso ou profanação alguma. Ficam proibidas as chamadas folias, sendo permitido o rufo de tambores nas freguesias rurais, e proibidas as devoções feitas em casas particulares com a presença da bandeira’. Essa é a lei, e ninguém que se diga católico pode menosprezar ou arrogar-se acima da lei. Pode ser lido, como disse, aos interessados; mas também pode ser lido e comentado do púlpito para a honra da Religião e também para a honra da paróquia. E na certeza de que esta medida não deixará de produzir os melhores resultados, permaneço a seu dispor”[118].
Em abril de 1954, em carta enviada pela Cúria, são enviadas também as normas a serem tomadas pelos padres de Santo Amaro com relação ao peditório com a bandeira, que são as seguintes:
“1) – Pode-se cantar por ocasião do peditório, contudo que sejam cânticos religiosos e não de amores etc. 2) – Os instrumentos podem ser rabecas e tambores, não porém pandeiros etc. que servem para folias. 3) – Salva, promessas, leilões serão anotadas em caderneta para evitar desconfiança e falatório. 4) – Transcrevo o parágrafo único: Para prevenir possíveis abusos, serão feitas explicações claras do púlpito; e, se fosse o caso, solicitada a intervenção de quem de direito. (Quer dizer, conforme comentário do Vigário Geral: eventuais medidas policiais e coercitivas)”[119].
A partir da realização da primeira Festa dedicada ao Divino Espírito Santo, em 1854, há a informação da inclusão da segunda-feira nos dias a ela destinados[120]. Há longos períodos nos anais da paróquia em que a segunda-feira destinada à festa não é citada. Mas, em 1916, na tentativa de disciplinar o ritual da festa é sugerido que na segunda-feira seja realizada a “coroação do novo imperador”[121]. Em 1959, o Livro do Tombo cita a segunda-feira como um dos dias festivos em honra ao Divino Espírito Santo e no qual foi realizado um baile, a partir do meio dia, conforme regulamentação da Cúria Metropolitana[122]. Em 1970, o Livro de Crônicas da Paróquia evidencia, novamente, a inclusão da segunda-feira nos dias destinados à Festa do Espírito Santo[123]. No ano seguinte, na Festa do Divino “tudo correu às mil maravilhas”[124].
No evento, em 1975, os anais da paróquia registram pela primeira vez o ato denominado “enterro dos ossos”[125], realizado na segunda-feira, no período da tarde. O referido ato, naquele ano, consistiu num Cortejo festivo, regado a bebidas e diversões ao som da banda de música, no qual “um caixão de ossos foi levado pelo centro da cidade com cantigas do velho carnaval, acompanhado pela banda de música. Os bares deixaram suas portas franqueadas para oferecer cerveja aos componentes do cortejo fúnebre”[126]: era o enterro dos ossos.
Ainda que o primeiro registro do “enterro dos ossos” tenha sido efetuado somente em 1975 nos anais da paróquia, é plausível que a sua efetiva instituição tenha sido em data anterior. Sobre o início dessa tradição em Santo Amaro, Dona Judith Ramos Müller, afirma que:
“meu pai, José Francisco Ramos, costumava dizer que, na tarde da segunda-feira da Festa do Divino Espírito Santo, após o término das festividades, alguns dos que nela trabalharam se reuniam para tomar uma cerveja e iniciar a limpeza dos salões e pátios. Era apenas uma reunião festiva daqueles que, em função de estarem prestando seus serviços durante a realização da festa, se reuniam após o seu término, para uma pequena confraternização entre amigos”[127].
Mas, se essa foi a motivação da instituição do ritual do Enterro dos Ossos na Festa do Divino em Santo Amaro da Imperatriz, o certo é que, com o passar do tempo, ele incorpora características próprias exclusivas. Em 2001, o ritual do Enterro dos Ossos foi descrito da seguinte forma:
“o festeiro (imperador) é colocado num caixão de madeira enfeitado com flores e conduzido pelo meio do público, acompanhado pela Banda (de Música). Outras pessoas assumem o lugar no caixão, inclusive o festeiro (imperador) do ano seguinte (...). O desfile pelas ruas da cidade é marcado pela distribuição gratuita de chope, levado na carroceria de um caminhão. Além de beber à vontade, os participantes jogam o chope uns nos outros e nos que passam, lembrando um pouco os tempos do entrudo. (...). O desfile retorna ao pátio da Matriz, onde há um conjunto musical para fechar a Festa”[128].
Ressaltamos também que, apesar da documentação evidenciar a inclusão da segunda-feira, após o dia de Pentecostes, como um dos dias destinados à realização da Festa do Divino Espírito Santo desde a sua criação em 1854, a história registra que a sua oficialização, enquanto feriado municipal em Santo Amaro, data somente a 08 de maio de 1997. Naquela data, o então prefeito Pedro Martendal sancionou a Lei de nº 1.183, instituindo “como Feriado Municipal, de conotação cultural, a segunda-feira destinada às atividades do Divino Espírito Santo”.
Em 1990, a festa sofreu críticas com relação ao luxo e ostentação que apresentava, como se observa no Livro de Crônicas da Residência dos Franciscanos de Santo Amaro:
“O desfile do Imperador com sua Corte está sendo criticada, pois o luxo e ostentação já não tem nada de sua origem. Além disso, o desfile incute no povo a mentalidade que na Igreja devemos ser submissos aos ricos e ditadores”.
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“Assim como os três reis magos
Que seguiram a estrela-guia
A Bandeira segue em frente
Atrás de melhores dias, ai, ai...”
“Bandeira do Divino”,
Ivan Lins
A largada para as comemorações da Festa Dedicada ao Divino Espírito Santo, que se realiza no domingo de Pentecostes, é iniciada no domingo de Páscoa. Na ocasião, realiza-se uma Missa na Igreja Matriz, finda a qual ocorre a saída das Bandeiras Peditórias conduzidas pelos procuradores, os quais visitarão todos os paroquianos. A bandeira se constitui num mastro encimado por uma pomba, geralmente esculpida em madeira. Este mastro é revestido por um pano vermelho retangular (daí o nome bandeira) que apresenta uma pomba em branco e de onde emanam sete raios dourados, representando os sete dons do Espírito Santo. Abaixo da pomba entalhada pode haver flores e, na maioria delas, fitas coloridas, as quais são abençoadas na Igreja e das quais poderão ser cortados pedaços pelas pessoas que recebem a Bandeira Peditória em suas casas, onde são guardadas como sinal de bênção. Muitas vezes são os devotos que colocam as fitas coloridas junto à bandeira para agradecer ou pedir uma graça ao Divino Espírito Santo.
Procurador é a pessoa responsável pelo trajeto da Bandeira Peditória, sendo que a ele, às vezes, se unem mais pessoas, com as funções de levar a bandeira, tocar o tambor e soltar fogos, anunciando a proximidade da bandeira às casas dos paroquianos, bem como às lojas, casas de comércio, órgãos públicos, etc. Algumas pessoas acompanham o trajeto da bandeira para pagar promessa. Ao longo do trajeto, os componentes do grupo levam instrumentos de percussão (tambor e bumbo) e foguetes para anunciar a passagem da Bandeira Peditória. Como ninguém é tão pobre que não tenha o que ofertar ao Divino nem tão rico que a Ele não precise pedir nada, a “Bandeira” é entronizada, de porta em porta, em todas as comunidades filiadas à Paróquia, acompanhada de rezas, cantos e coletas de donativos. Ao chegar às casas, seus moradores se aglomeram num de seus cômodos para receberem a bênção do Divino, ocasião em que beijam a pomba do Divino ou as fitas existentes em seu mastro e depois recebem um folder com o convite para a Festa do Divino Espírito Santo, a programação das novenas e uma oração ao Espírito Santo. Após reverências e bênçãos recebidas, a família visitada, em sinal de agradecimento, oferece uma contribuição.
A visita da Bandeira Peditória é geralmente acompanhada por cantoria e instrumentos, a chamada Folia do Divino. Algumas famílias promovem novenas ao Espírito Santo, com a presença da bandeira, ocasião em que se esmeram na decoração de suas casas com motivos religiosos para receberem familiares e vizinhos e fazer as orações e a cantoria do divino. Nas casas onde acontecem as novenas de tradição açoriana, quase sempre nas residências dos Procuradores, são erguidos altares em honra ao Divino Espírito Santo e, é nestes altares que o Capelão entoa as orações e a ladainha em honra a Nossa Senhora e ao Divino Espírito Santo. Terminada a novena, o Procurador realiza um leilão das massas oferecidas ao Divino. Logo após, em algumas ocasiões, um Grupo Folclórico realiza a cantoria do Divino, sendo que o folião mestre entoa os versos (solo) e os demais componentes do grupo os repetem com uma melodia bastante harmoniosa. Os versos são inspirados na hora, baseados na realidade ali presente. Finalizada a cantoria, é passada a salva entre os devotos para quem quiser oferecer sua contribuição. Em seguida, a bandeira é levada pelo Procurador entre os fiéis para ser beijada. Aos cantores, capelão, convidados e demais presentes é também servido um café com pães, bolos ou outros doces ou, ainda, um coquetel, sempre oferecido pelo Procurador ou dono da casa, como forma de agradecimento pelos dons recebidos.
Nove dias antes de Pentecostes, as Bandeiras Peditórias retornam à sede paroquial, tendo início as novenas na Igreja Matriz. Essas novenas são preparadas pelas mais diversas pastorais da paróquia e nelas são refletidos aspectos referentes ao Espírito Santo e sua ação na Igreja.
A Festa do Divino, festa religiosa itinerante, é realizada no final de semana de Pentecostes, data em que a Igreja Católica comemora a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos e Nossa Senhora, e ocorre sete semanas depois do domingo de Páscoa. Interessante salientar que, em Santo Amaro da Imperatriz a referida festividade não obedece a um ritual fixo possibilitando, desta forma, o incremento ou a abolição de alguns aspectos considerados convenientes pela comissão organizadora da festa ou pelo próprio Casal Imperial.
Dessa forma, na sexta-feira, que antecede ao domingo de Pentecostes, marcando o início da Festa, o Prefeito Municipal entrega as chaves da Prefeitura ao Casal Imperial, simbolizando que nos três dias de festividades ele impera na cidade.
Para os festejos, as ruas da cidade são decoradas com bandeirinhas, conferindo-lhes um ambiente ímpar de festa. As residências e, sobretudo, as vitrines das lojas comerciais da área urbana da cidade também são ornamentadas com símbolos que remetem ao Espírito Santo.
No sábado, os festejos são iniciados com a realização do Cortejo Imperial. Às 18h15min, a Banda de Música, três Bandeiras Peditórias acompanhadas pelos padres devidamente paramentados, saem da Igreja Matriz e se dirigem à sede da Prefeitura Municipal buscando a Corte e o Casal Imperial para a Missa da Coroação. Uma grande multidão se aglomera na Praça Ivo Silveira a espera da Corte Imperial, que solenemente sai do recinto da Prefeitura Municipal. Lá, estão o Casal Imperial, o Imperador, a Imperatriz e sua Corte para representar o ritual instituído pela Rainha Isabel, no século XIV: dirigir-se com a Corte Imperial para a igreja e oferecer a coroa imperial ao Espírito Santo.
Às 18h30min, o trânsito de veículos é interrompido na rua principal da cidade, momento em que três porta-bandeiras deixam a sede da Prefeitura Municipal, ao som da banda de música, abrindo caminho para o Cortejo Imperial, os padres, o casal festeiro, seus convidados e autoridades constituídas que se dirigem à Igreja Matriz. O casal festeiro leva nas mãos a Coroa, lavrada em prata. Ela é imperial, com cinco braços, cuja junção se dá na extremidade superior onde há uma esfera representando o globo terrestre, e sobre ela, de asas abertas, pousa a pomba, símbolo do Divino Espírito Santo; ela é a insígnia principal de um conjunto formado pelo cetro, a salva e a espada. A coroa é colocada em cima da salva que lhe serve de apoio durante o Cortejo Imperial. O cetro significa o poder temporal do Rei. É um bastão de prata lavrada, composto de um punho com algumas saliências, encimado por uma esfera na qual assenta uma pomba. Na ponta do cetro é amarrada uma fita vermelha. É sempre levada pela menina ou adolescente que forma o casal de Imperatriz e Imperador. Esse casal é formado quase sempre por crianças ou adolescentes, normalmente filhos dos festeiros ou de seus parentes próximos. Durante os festejos, a coroa e o cetro deixam de ser “símbolos do poder temporal do ‘imperador’ para constituírem símbolos do próprio Espírito Santo e objetos de veneração e culto”.
O casal que representa o Imperador e a Imperatriz veste-se com roupas luxuosas que remetem à Corte portuguesa, acompanhadas de mantos bem decorados com bordados e brilhos. Está sempre trajado, com indumentárias e acessórios que remetem ao século XIV, época em que a Rainha Isabel institui a festa, desde o modelo dos cabelos, roupas, luvas, calças, meias, vestido longo rodado bordado, e o Imperador com calças em meia canela, meias três quartos, sapato estilo imperial.
A Imperatriz leva nas mãos o cetro e o Imperador, a espada. A Imperatriz leva em sua cabeça uma coroa toda ornamentada de brilhos e o Imperador, um chapéu ornamentado de penas. Atrás dos imperadores vai um casal que segura as capas.
A Corte é composta pelo Imperador e a Imperatriz, os pajens e as damas da Corte (também crianças ou adolescentes), geralmente seis casais, que também vestem roupas que remetem ao século XIV. Essas roupas são quase sempre confeccionadas em tecidos nobres como o veludo e bem ornamentadas, de acordo com a disponibilidade financeira do Casal Imperial que financia a Corte e boa parte das comemorações. O Casal Imperial é o responsável pelo provimento financeiro do evento, assumindo pessoalmente o custeio de parte dos festejos, isto é, pelos trajes da Corte Imperial e pela ornamentação da festa.
O Cortejo Imperial é montado obedecendo a uma ordem extremamente elaborada e consignada pela tradição. Em primeiro lugar, vêm as três moças conduzindo as bandeiras do Divino, chamadas de porta-bandeiras. A seguir, quase sempre, é uma menina (criança) que carrega uma almofada trazendo bordada a pomba do Espírito Santo. Logo após, vêm as damas da Corte e os pajens, sendo que número de casais varia conforme a deliberação do festeiro. Na seqüência, vêm o Imperador e a Imperatriz e, após estes, o casal de festeiros, trazendo o principal símbolo da festa: a coroa.
Devidamente constituída, a Corte Imperial caminha solene e pomposamente pelas principais ruas da cidade até a Igreja Matriz para a Missa da Coroação, enquanto a Banda executa músicas apropriadas para a ocasião. A Corte e o séqüito imperial ocupam uma posição de grande relevância no ritual dos festejos. Centenas são os paroquianos e turistas que se aglomeram nas calçadas para prestigiar a centenária tradição. O Imperador, a Imperatriz, a Corte Imperial e o casal festeiro entram pela porta principal da Igreja Matriz – ricamente ornamentada para a ocasião e pequena para abrigar os milhares de fiéis que participam da solenidade – e se colocam junto ao altar, de frente para o povo, para o início da liturgia solene em homenagem ao Espírito Santo. Já na igreja, em algumas ocasiões, é executada a Cantoria do Divino, seguida da solenidade da Coroação do Imperador, pelo Padre, após lhe ser entregue a coroa pelo Casal Imperial. A Coroação do Imperador é um dos principais momentos da cerimônia religiosa e consiste na imposição solene da Coroa ao Imperador. No altar, a Imperatriz fica com o cetro na mão e o Imperador, com a espada.
Antecedendo esse ritual, acontece a leitura de um histórico sobre a Festa do Divino atribuindo a sua instituição à Rainha Santa Isabel de Portugal, esposa de Dom Dinis. Instituída em Alenquer, em Portugal, no século XIV, após um conturbado período caracterizado por instabilidades políticas em Portugal.
Momentos depois, o padre retira a coroa da cabeça do Imperador, entrega-a ao Casal Imperial que a coloca sobre a salva e a oferece ao Divino Espírito Santo, colocando-a solenemente sobre o altar, onde fica durante a celebração da missa. Após a oração da Comunhão, já no término da missa, o Casal Imperial retoma a coroa que está sobre o altar e a entrega ao padre para que efetue a Coroação do Imperador.
Dada a bênção final, as Bandeiras Peditórias acompanhadas da Corte Imperial e dos Padres, deixam em procissão o recinto da Igreja Matriz e, em meio à multidão que abre passagem, seguem para o salão de festas, acompanhas pela Banda de Música, ocasião em que são realizados shows pirotécnicos. No salão, é preparado o ‘Império’, objeto de uma decoração particularmente cuidada, onde avultam ornamentações que remetem ao Espírito Santo, constando nele o trono do Imperador. Ali, ficam expostos para “veneração”, ao mesmo tempo em que é realizada uma seção de fotografias, o casal de Imperadores, a Corte, as Bandeiras Peditórias, a coroa do Divino, o cetro, a espada, enquanto a banda de música faz sua apresentação.
Esse trono improvisado é altamente luxuoso, sendo que, de uma festa para outra, sofre várias mudanças. Cada casal festeiro deseja fazer sempre o melhor. O trono é decorado com flores, grama, chafariz, carruagens, gaiolas de pombas, etc. É lá que a família imperial recebe os cumprimentos. O luxo da Corte e de seu Império faz com que a Festa do Divino de Santo Amaro da Imperatriz seja considerada “a mais pomposa do Estado” de Santa Catarina.
As massas são outro ponto de destaque da Festa de Divino Espírito Santo. São massas trazidas pelos devotos como pagamento de promessas pelas graças recebidas ou adquiridas pela organização do evento; todas são colocadas sobre uma grande mesa, onde permanecem expostas até o último dia da festa, segunda-feira. Nesta ocasião, são leiloadas e arrematadas pelo festeiro do próximo ano. Ele as distribui aos pobres da comunidade numa imitação do bodo imperial realizado na ocasião da instituição dos festejos do Divino Espírito Santo, em Portugal.
Quando resulta de promessas, a doação das massas pode ser concebida como uma contra-dádiva à dádiva divina recebida. Também chamadas de ex-votos, são massas de pão feitas nos mais diversos formatos, geralmente na forma da parte do corpo doente que deu motivo à promessa realizada em ocasiões de doenças ou aflições. Deste modo, são oferecidas pernas, mãos, braços, corações, cabeças, pés e outros órgãos, que no decorrer da festa são adquiridas nas imediações do Império e oferecidas simbolicamente ao Divino, em louvor a uma graça obtida. Os fiéis costumam adquirir essas massas, geralmente com o formato do corpo que deu origem à promessa, e, de posse dela, deslocam-se até a Corte Imperial. Lá, ajoelham-se diante do Casal Imperial e beijam a pomba em cima no cetro, que fica na mão da Imperatriz. Após o ritual, não raras vezes, as massas adquiridas pelos fiéis são por eles oferecidas ao Espírito Santo e, por isso, devolvidas para que outros possam dela se utilizar.
O ritual do Cortejo Imperial e da Missa da Coroação é repetido no domingo pela manhã e à noite, e na segunda-feira pela manhã. Em cada cortejo, a corte imperial troca de figurino tornando o evento ainda mais luxuoso e atrativo.
No domingo às 12 horas, a Família Imperial e seus convidados promovem um almoço festivo num dos salões paroquiais, a exemplo da “função” ou “sopa do Espírito Santo” existentes nos Açores. É um grande banquete oferecido pelo festeiro para os seus convidados especiais.
No domingo, antes do término da missa das 19 horas, o Casal Imperial anuncia o nome de seu sucessor para o próximo ano, o qual foi previamente convidado. Assim que anunciado, o novo Casal Imperial se desloca ao presbitério onde recebe os cumprimentos do Casal Imperial e dos padres e depois acompanha solenemente o cortejo para o Império instalado no salão paroquial onde recebe os cumprimentos de parentes e amigos.
Na missa da segunda-feira, oficiada às 10 horas, é realizada a coroação do Novo Imperador. O novo Casal Imperial, o novo Imperador e a nova Imperatriz e convidados participam do cortejo, iniciado às nove horas trinta minutos. Chegando à Igreja Matriz, o Imperador e a Imperatriz cedem seu lugar no trono para o novo casal de Imperadores. Lá, o novo Imperador e Imperatriz recebem o manto imperial de seus antecessores, sendo depois realizada a solene coroação do novo Imperador. E ali, do trono, ele participará da missa. Ao término da cerimônia religiosa, o cortejo, já com o novo imperador coroado, se dirige para o Império.
É interessante notar que a partir desse ato de coroação tem-se a presença de dois imperadores, um efetivo, coroado no ano anterior, cujo “mandato” está se extinguindo, e outro, também efetivo porque coroado, cujo mandato, porém, ainda não começou.
Na segunda-feira também é promovido um almoço festivo, só que, desta vez, ele é oferecido pelo casal festeiro do ano seguinte, aos seus convidados.
O Enterro dos Ossos acontece na segunda-feira, geralmente a partir das 15 horas. Na tarde deste dia, que se tornou um feriado municipal, as Bandeiras Peditórias, a coroa, o cetro e a espada, são conduzidos em procissão pelas duas famílias imperiais, em trajes menos pomposos, acompanhadas pela banda de música e entregues ao pároco na capela interna da casa paroquial. Em seguida, o festeiro é colocado por populares num caixão de madeira enfeitado com flores e conduzido pelo meio do público, acompanhados pela Banda de Música. Na seqüência, outras pessoas se revezam no caixão, inclusive o festeiro do ano seguinte, enquanto o desfile segue por algumas ruas da cidade, caracterizando-se pela distribuição gratuita de chope, levado na carroceria de um caminhão. Além de beber à vontade, os participantes jogam o chope uns nos outros e nos que passam, numa grande brincadeira. O desfile retorna ao pátio da Igreja Matriz, onde um conjunto musical faz um show de encerramento da Festa.
Passados 150 anos da instituição da Festa do Divino Espírito Santo em Santo Amaro da Imperatriz, apesar dos “abusos antigos e reformas prescritas” pelo clero, continua sendo o grande referencial religioso-folclórico da homônima e também sesquicentenária paróquia. Inserida na cultura popular, a Festa do Divino tem representações religiosas e profanas, as quais incidem no modo de ver e compreender o mundo da comunidade local, há um século e meio.
RELAÇÃO DOS CASAIS IMPERIAIS – FESTEIROS – DA FESTA DO DIVINO
ESPÍRITO SANTO DE SANTO AMARO DA IMPERATRIZ
ANO
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NOME DO CASAL IMPERIAL FESTEIRO
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OBSERVAÇÕES
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FONTE
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1854
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1865
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1866
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1867
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1868
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Manoel Antônio Soares do Nascimento
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Jornal O Constitucional. Desterro-SC, de 02/07/1868, p. 3.
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1869
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1870
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1871
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1872
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1873
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1874
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1875
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Domingos Antônio Vieira
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CAMPOS, Francisco Cândido de. “Histórico...”, p. 96.
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1876
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Cândido Antônio de Borba
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CAMPOS, Francisco Cândido de. “Histórico...”, p. 99.
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1877
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João Eleutério Farias
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1878
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Domingos Barbosa Valente
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1879
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Jacob Philippi
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1880
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Camilo Antônio de Mattos
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1881
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Manoel José da Silva
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1882
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Antônio Lourenço de Medeiros
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1883
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Francisco Antônio de Morais
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1884
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Merenciano Francisco da Rosa
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1885
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Francisco Lourenço de Medeiros
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1886
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José Marcelino Vieira
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1887
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João Ferreira da Cunha
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1888
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Francisco Alexandre de Campos
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1889
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Emerenciano José Silveira
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1890
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José Pedro Koerich e Carolina Werner
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Informação de familiares
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1891
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Carlos Jacobi Lünnback
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1892
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José Henrique Klöppel e Ana Clara Schürhaus
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1893
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Manoel Francisco Felisbino
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1894
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João Galdino Duarte
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1895
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Chrispim Lourenço de Silva
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1896
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Antônio Vieira Amaro da Rosa
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1897
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Camillo Antônio Valente
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1898
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Manoel Antônio Soares do Nascimento
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1899
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Leopoldo Bernardo Broering
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1900
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Gustavo Richard
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1901
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Frederico Bernardo Broering
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1902
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Jorge Brüggemann
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1903
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Davi Claudino D’Ávila
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1904
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Alfredo Magno da Silva Porto
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1905
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Henrique Becker
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1906
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Gregório Trierweiler
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1907
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Augusto Guniewald
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1908
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Pascoal Antônio Coelho
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1909
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Josué Di Bernardi
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1910
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Antônio H. Lehmkuhl
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Braz Campos de Araújo cita: Marcolino José Costa
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Caixa Paróquia Santo Amaro I, Pasta (1910-1915), documento datado de maio de 1910. AHESC.
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1911
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José Ferreira de Macedo
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Braz Campos de Araújo cita: Jacob Philippi Knabben
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Caixa Paróquia Santo Amaro I, Pasta (1910-1915), documento datado de 18 de abril de 1911. AHESC.
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1912
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Ladislau Leôncio Martins
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1913
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Luiz Paulino da Silveira
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Braz Campos de Araújo cita: Paulo Henrique Broering
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Caixa Paróquia Santo Amaro I, Pasta (1910-1915), documento datado de 20 de março de 1913. AHESC.
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1914
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Carlos Antônio de Borba
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1915
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Ângelo Francisco de Campos
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1916
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João Medeiros dos Santos
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Braz Campos de Araújo cita: Pedro Durieux
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Caixa Paróquia Santo Amaro I, Pasta (1915-1919), documento datado de 03 de março de 1916. AHESC.
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1917
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Jorge Nicolau Berbe
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1918
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Camillo Afra Valente
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Braz Campos de Araújo cita: Tebiôni de Oliveira
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II Livro do Tombo (1917-1977), p. 2.
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1919
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José Laurindo Machado
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1920
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Mansur Elias e Maria Salum Elias
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1921
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João Cordeiro
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1922
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João Schwartz e Albertina Goedert
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1923
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Pedro Della Rocca
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1924
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Baita Elias
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1925
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Antônio Barbosa
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1926
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Jordino Tomas Coelho
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1927
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Antônio Luiz Amorim
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II Livro do Tombo (1917-1977), p. 22v.
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1928
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Pedro Althoff e Clara Althoff
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II Livro do Tombo (1917-1977), p. 28v.
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1929
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Elizeu Di Bernardi
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Braz Campos de Araújo cita: Felício Mansur Elias
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Informação de Judith Ramos Müller
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1930
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José Cunha
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1931
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José Mansur
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II Livro do Tombo (1917-1977), p. 36.
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1932
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Estêvão Becker e Maria Becker
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II Livro do Tombo (1917-1977), p. 38.
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1933
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Leogildo Gomes
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II Livro do Tombo (1917-1977), p. 41.
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1934
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Ernesto Pedro Rosar
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Informação de Judith Ramos Müller
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1935
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Nelson Cordeiro e Marieta Cordeiro
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1936
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Gaspar Antônio Abreu
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1937
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Paulo Becker
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1938
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João Ferreira de Sousa e Maria de Sousa
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1939
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João Duarte da Silva e Ana Klöppel
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Braz Campos de Araújo cita: João Duarte
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Informação de Judith Ramos Müller
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1940
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